Um lugar de voz

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Miriam Gimenes

A fotógrafa Deise Veronesi, de São Bernardo, fez ensaio com pessoas comuns, negras, para mostrar que não é preciso estar nos padrões para se sentirem belas.
 
 
 
Uma transição capilar imposta pela gravidez fez com que a fotógrafa Deise Veronesi, 38 anos, de São Bernardo, passasse a notar olhares de reprovação ao seu novo visual. Ela trabalhava em uma empresa que vendia chapinhas e secadores, aparelhos os quais foi dependente por 15 anos. Mas a mudança nos seus fios e o nascimento da filha, negra como ela, fizeram com que sentisse a necessidade de mostrar a mulheres e homens, também negros, que não é necessário estar nos padrões para se amarem e se sentirem bonitos. Hoje ela ama seus cachos. 
 
 
Fez, então, um ensaio do projeto Permita-se, junto com a maquiadora Janaína Barros, e o resultado deve, em breve, virar exposição na região. Confira, a seguir, o seu relato. 
 
“Sou formada há oito anos em fotografia e meu trabalho sempre foi voltado para família e mulheres. Me identifiquei muito de trabalhar o lado emocional gestante, de crianças em festas (@fotos_deiseveronesi). Até que fui mãe em 2018, sou negra e comecei a perceber que tinha diferença muito grande, das mulheres negras sempre se sentirem inferiores a outras. Fiz meu pré-natal pelo SUS (Sistema Único de Saúde), porque tinha vontade de ter minha bebê de parto natural e lá tive contato com muitas mulheres que não tinham condições de serem fotografadas. Muitas não se amam, se acham feias e não podem ter tudo o que a nossa sociedade entrega. E eu senti isso na pele por muitas vezes. Minha filha é negra, teoricamente é o único bebê negro da escola dela, um colégio particular. Quando veio essa situação do ‘vidas negras importam’, esse movimento todo de que o negro tem força, decidi junto com a minha maquiadora que a gente tinha de fazer algo por mulheres negras que não têm condição de ter um ensaio fotográfico,  que são lindas e precisam ser vistas com outros olhos.
 
Convidamos, então, mulheres e homens de São Bernardo (bairros Planalto, Calux, Baeta Neves), pessoas comuns, com diversos tons de pele, casais, trancistas, acima do peso, black, de cabelo curto, que usam turbantes, da pele clara, com cabelo crespo, biótipos que sofrem preconceitos da sociedade. Ao todo foram 20 modelos, que com fotos incríveis conseguimos mostrar a beleza de cada um deles e fez com que se aceitassem como são. Eu usei por muitos anos o meu cabelo liso, fui escrava da chapinha, nunca tinha me aceito e, quando fui mãe, passei por um processo de progressão. Voltei a usar meu cabelo crespo e percebi muito preconceito no meu trabalho, inclusive porque era uma empresa de chapinhas e secadores. Muitas pessoas acharam que ficou lindo, mas uma maioria se espantou com a forma como meu cabelo ficou. Mas eu estou amando o meu cabelo do jeito que ele é. E, durante esse projeto, decidi fazer trança no meu cabelo, que eu nunca tinha feito na vida. Pedi para a trancista fazer porque queria sentir na pele o preconceito que ela me contou que vivia.  E, ao entrar no banco, percebi que as pessoas olham diferente, no prédio que eu moro, no trabalho, aquilo despertou curiosidade nas pessoas. Mas eu resolvi me permitir e isso foi muito interessante. Neste projeto minha intenção foi fotografar homens e mulheres  negros e empoderá-los do jeito que eram. É importante que saibam que não precisa estar dentro de nenhum padrão que a sociedade exige para você se aceitar. Se permitam  ser quem de fato elas são. Um lugar de voz. O meu desejo era que não existisse mais preconceito. Minha filha precisa ver a representatividade e ser criada com liberdade, inclusive de padrões.”
 
 
 
 
 
 
 



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