Cuidem umas das outras

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Aline Melo

No momento em que escrevo essa coluna, o Grande ABC tem 62 casos confirmados de Covid-19 e ao menos três mortes causadas pela doença, que se espalhou pelo mundo. Entre as vítimas fatais – até esta data, 98 no Estado de São Paulo e 136 no Brasil, mas, provavelmente, quando esta revista chegar às suas mãos, os números já estarão desatualizados, me perdoe por isso – a maioria é de idosos, pessoas com mais de 60 anos. Mas existe um fato em meio a toda essa situação que merece ser destacado: em qualquer situação de crise, as mulheres costumam ser as primeiras vítimas.

Existem números para comprovar a minha afirmação. Apenas em Diadema, até o dia 27 de março, dos 55 profissionais de saúde com suspeita de terem sido infectados, 47 eram mulheres. A mão de obra que compõe as equipes de enfermagem é majoritariamente feminina. Nas famílias, de quem normalmente é a função de cuidar de crianças e velhos, saudáveis ou doentes? Quase sempre é da mulher.

Estamos, sem dúvida nenhuma, vivendo a pior crise epidemiológica e de saúde –  e que deve se transformar também na pior crise econômica e humanitária mundial – de todos os tempos. Escritora, intelectual, filosofa e uma das personalidades mais influentes do feminismo, a francesa Simone de Beauvoir escreveu: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que se manter vigilante durante toda a sua vida”. Por isso, é preciso estarmos atentas, já que esta crise está apenas no começo.

A BBC mostrou que  a violência doméstica contra as mulheres aumentou na China, durante o período de quarentena no país asiático, o primeiro a ser afetado pela doença. No Rio de Janeiro, também foi registrado aumento de 50% nos casos que chegaram ao plantão judiciário do Estado. No Grande ABC, ainda não foi registrado elevação, mas a Justiça já concedeu, de janeiro a março, 502 medidas protetivas de urgência, com base na Lei Maria da Penha. O levantamento refere-se ao período entre 1º de janeiro e 26 de março, ou seja, a cada dia, ao menos cinco medidas protetivas foram expedidas. Considerando que o decreto estadual que estabeleceu a quarentena em São Paulo segue pelo menos até o dia 4 de abril, esses números, infelizmente, ainda podem aumentar.

Também filósofa e escritora, a brasileira Marcia Tiburi escreveu, em seu livro Feminismo em Comum, de 2018, que “o feminismo é o contrário da solidão”. E não há nada mais potente do que o nosso poder curativo, a nossa capacidade de ajudarmos umas às outras. Em um País com um grande número de famílias monoparentais, em que mais de 80% delas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são comandadas por mulheres, seremos nós na linha de frente das dificuldades. Cuidemos umas das outras. Quem não teve perdas na renda, siga pagando, se possível, os serviços autônomos que outras mulheres prestam, como faxina, manicure, pedicure, para que elas também possam fazer a quarentena. Compre da pequena produtora os ovos de Páscoa com os quais pretende presentar os parentes e amigos. Fortaleçamos desde já nossa rede de apoio, para podermos seguir juntas e enfrentar o que ainda estiver por vir.



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