Construindo narrativas

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Aline Melo

A história foi contada pelos homens. Essa afirmação é bastante simples e carregada de verdades. Se às mulheres foi negado por muito tempo o direito de estudar, não é difícil imaginar que os primeiros relatos históricos de tudo o que havia no mundo foram feitos por eles. E se, em se tratando de guerras e batalhas, normalmente só se conhece a versão dos vencedores, na disputa pelas narrativas da sociedade também fica claro que quem detinha maior poder – social e econômico – é que tinha o privilégio de dizer (e escrever) como as coisas eram. Assim sendo, muito do que a gente tem hoje por conceito comum são narrativas produzidas por homens e em benefício deles. 

Quando uma mulher se entende feminista e passa a questionar os machismos grandes e pequenos do seu cotidiano, não raro acusa isto em tudo. Ocorre que sim, infelizmente, há machismo por todos os lados. Porque isso está na nossa sociedade desde sempre e muitas vezes é reproduzido sem que ao menos as pessoas percebam.

Expressões que muitas vezes parecem inocentes podem carregar, na essência, conceitos absurdos. O mito de que a mulher brasileira é mais sexy, por exemplo. Além do problema já mencionado, esse é um conceito carregado de racismo. Vejamos: quando os primeiros portugueses chegaram aqui, a partir de 1500, não foram poucos aqueles que se relacionaram sexualmente (de forma abusiva, é bom frisar) primeiro com as índias, depois com as negras que vieram escravizadas de diferentes países da África. A história nos conta que foram inúmeros os estupros contra essas mulheres, perpetrados por homens brancos que não apenas se consideravam seus donos, como não as viam como seres humanos dignos de respeito.

Homens casados, com suas mulheres brancas, seguiam estuprando e abusando sexualmente de índias e negras, muitos deles justificando que essas mulheres “gostavam mais de sexo” do que suas mulheres. É este o embrião desse conceito violento que associa mulheres brasileiras – especialmente as negras – com maior apetite sexual. É esta também a base da violência sexual contra a mulher, sustentada no senso comum de que mesmo quando está dizendo ‘não’, ela está aceitando investidas.

Outra narrativa construída para favorecer os homens e replicada décadas a fio sem questionamento é a de que aquele marido/companheiro/namorado que divide as tarefas e/ou os cuidados com os filhos está ‘ajudando’. Ajuda quem não tem a obrigação de fazer. Se o homem mora na casa, se é o pai dos filhos, ele apenas cumpre com a sua obrigação. E muito mais do que apenas uma palavra, entender esse conceito muda a nossa postura diante da vida, do que entendemos que merecemos e do que esperamos de quem divide a vida conosco.

Hoje em dia, graças à internet e às redes sociais, também temos exemplos opostos de construções de narrativas, com palavras que foram usadas de forma pejorativa, mas que tiveram seu significado subvertido para algo positivo. A ativista ambiental sueca Greta Thunberg, 17 anos, liderou série de greves estudantis por medidas de combate às mudanças climáticas e foi escolhida a personalidade do ano em 2019 pela revista Time. Também discursou na conferência climática da ONU (Organização das Nações Unidas), em setembro. Após a jovem escrever no Twitter que os povos indígenas estavam morrendo por tentar proteger a floresta, o presidente Jair Bolsonaro declarou que “é impressionante como a mídia dá voz a essa pirralha”. Greta não só se apropriou da palavra, como a colocou na descrição de seu perfil no Twitter, e impulsionou uma campanha virtual com a #lutecomoumapirralha. 

Mudar a nossa forma de perceber as narrativas faz com que a gente não só se aproprie delas, como sejamos capazes de dar um novo significado. São movimentos de combate aos micromachismos, aqueles que estão ali, escondidos, e que ajudam na mudança de comportamento de toda uma sociedade.




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