Super-herói

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Miriam Gimenes

Família cria financiamento coletivo para publicar livro infantil de Mateus, garoto que teve leucemia e partiu ano passado.

Mateus Valezin Padetti tinha apenas 3 anos quando descobriu a leucemia. Como toda criança, que tem a imaginação aguçada, tratou de usá-la para lutar contra a doença. Durante o tratamento, que durou quatro anos, ele, que era fã da saga Star Wars, criou a princesa Medula, aquela que foi sequestrada por monstros, o que desestruturou o reino. E quem o rei chamou para ajudar a encontrá-la? O super-Mateus, que conseguiu encontrá-la e a paz voltou a reinar. 

Mas na vida real o final que ele imaginou não se concretizou. Mateus partiu no fim do ano passado, mesmo tendo feito o transplante de medula. A fim de publicar a história que o garoto criou, e promover a conscientização sobre doação de sangue, plaquetas e como se cadastrar para ser um doador de medula, a família criou financiamento coletivo (benfeitoria.com/aprincesamedula) para publicar a história criada por ele. A campanha foi ao ar no dia em que ele completaria 8 anos, em 23 de janeiro. A meta é R$ 60 mil para a edição, diagramação, impressão e entrega dos livros em entidades que atendem crianças em tratamento de câncer infantil. Confira, a seguir, o relato de sua mãe, Carla Valezin. 

“O Mateus sempre foi um menino muito alegre, brincalhão e contador de histórias. Ele amava que contassem histórias para ele, mas também adorava contar e criar as suas. Sua brincadeira favorita era inventar aventuras para os seus bonecos, em sua maioria, os super-heróis e heroínas. Como ele era muito ativo, e um pouquinho desastrado, como eu, manchas roxas eram frequentes por conta de uma batida de perna na quina da mesa, uma queda brincando de pega-pega ou qualquer atividade comum de uma criança. Foi então, em 2015, que essas manchas roxas deixaram de ser algo comum e passaram a um diagnóstico de leucemia. Foi uma notícia devastadora para mim ver o meu filho, de apenas 3 anos na época, naquela situação. Mas a pessoa mais forte e que deu mais apoio para mim e para que toda a família se mantivesse firme, unida e não desistisse foi o próprio Mateus. Incrível como uma criança tem palavras sábias em momentos difíceis. Ele foi e ainda é a força que eu preciso.

Com ele no hospital, eu, minha família e amigos começamos a entender mais sobre o que realmente é a rotina de alguém que precisa de doações de sangue, plaquetas e medula para sobreviver. Por isso, criamos uma página no Facebook (Liga dos Heróis) para divulgar informações básicas. No início, começamos realizando campanhas entre os amigos. Não tínhamos ideia da proporção que isso tomaria. Fazíamos postagens explicativas sobre como se cadastrar para ser um doador de medula, onde doar sangue em sua cidade, os diferentes tipos de sangue, divulgávamos crianças e adultos que precisavam com urgência de doação de sangue, plaqueta. É uma questão de olhar ao próximo. Não era apenas porque estávamos passando aquilo com o Mateus, mas sempre tivemos essa preocupação em ajudar. Minha família é escoteira e sempre fomos envolvidos em projetos sociais. Quando nos vimos na situação da doença do Mateus, e vivenciamos a rotina de várias famílias no hospital, tivemos a real noção do quanto falta informação em várias esferas e começamos a fazer um pouco. E esse pouco começou a contagiar os demais

A leucemia foi embora e, quando voltou, a necessidade do transplante de medula foi colocada em pauta. Foi aí que começamos, na internet, fazer campanha para que as pessoas se cadastrassem para serem doadores de medula e a brincadeira de buscar a Princesa Medula começou. Para explicar para o Mateus tudo o que ele iria passar usamos as histórias de heróis e fizemos essa ligação entre o real e a imaginação dele. Em 2019, ele fez o transplante, com a minha medula, e logo após isso, um dia conversamos sobre o livro da Princesa Medula, e ele contou em detalhes essa jornada incrível. Apesar da medula ter ‘pego’, alguns meses depois ele faleceu por conta de uma infecção. 

Nesse momento de luto, encontramos no ato de continuar fazendo o bem para outras crianças uma forma de sempre estar lembrando do Mateus, de sempre estar fazendo algo por ele, de mantê-lo vivo não apenas em nós, mas de mantê-lo vivo também nessa história, que ele escreveu com tanto amor.”

 



Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2020. Todos os direitos reservados