O outro lado de Paris

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Miriam Gimenes

Escritora Marcia Camargos, que se mudou para França em 2016, descreve em livro como é ser um imigrante na Cidade Luz

Há um belíssimo filme de Woody Allen, o Meia-Noite em Paris (2011), que mostra, de maneira metafórica, toda fantasia existente sobre a Cidade Luz. Em constantes ‘viagens’ ao passado, um escritor, Gil Pender (Owen Wilson), que está de férias com sua noiva por lá,  conhece grandes nomes da literatura e arte da história. No longa, é claro, mostra-se com categoria os atrativos locais, que fascinam, anualmente, milhares de turistas que desfrutam dos cenários parisienses.

Marcia Camargos também é escritora,  tem 29 livros publicados, mas não foi para a cidade a passeio. De malas prontas, junto com o marido, que é francês, fez residência no país e, munida de experiência, depois de mais de três anos por lá, escreveu o livro bilingue É Chique Morar em Paris? (Folhas de Relva Edições, 168 páginas, R$ 36), em que mostra, com humor e em forma de crônicas, o lado B da vida na capital francesa.  Ele pode ser comprado no site www.editorafolhasderelva.com.br.

Também jornalista, Marcia adianta que o leitor vai desmistificar a ideia de uma Paris sóbrea, que acolhe de braços abertos. “Uma coisa é você ir passar férias como turista. Outra é realmente estabelecer uma moradia num lugar. Para o turista não se recita tanto essa aspereza do cotidiano quanto quem imigra. Sempre no tom do bom humor, com informações culturais práticas e históricas, tento levantar o véu e mostrar o lado da moeda das pessoas que moram em Paris.” A ideia, no entanto, não é fazer com quem queira ir para lá desista da ideia. “Geralmente se tem uma expectativa, que não é preenchida. Se a pessoa não estiver preparada, entra até em depressão, como acontece com muita gente. Se você vai com essas informações básicas, baixa a expectativa e consegue então encarar a situação de uma forma mais tranquila, mais madura, mais realista e isso te ajuda a combater tua ansiedade, a decepção”, ressalta.  

Um dos entraves é tirar os documentos necessários enquanto imigrante, algo totalmente burocrático. "Eles pedem documentos e você separa. Chega lá precisa de outros que não  estavam no site. É uma ida e volta sem fim, um teatro do absurdo”, descreve. Para pegar todas as nuances na visão de um imigrante, a escritora não usou apenas a sua experiência, mas de outros imigrantes que vivem por lá e deram depoimentos. “Também descrevo curiosidades, como, por exemplo, que lá não tem quarteirão, não tem número de apartamento. A pessoa chega nos endereços por meio de descrições.  O livro mistura de desabafo e contribuição. A escrita tem também  uma função terapêutica, até para me localizar neste espaço.”

É claro que estar por lá tem também as suas vantagens. O seguro saúde, por exemplo, é garantido e gratuito, assim como os remédios. “Tem uma questão de uma sociedade um pouco socialista, em que você tem os seus direitos básicos garantidos, uma igualdade social muito maior que aqui no Brasil. A creche é paga, mas se você não ganha nada não precisa pagar nada. A mensalidade é de acordo com o que você ganha.” Outra questão é a limpeza das casas. Por serem pequenas, não se contrata uma diarista, por exemplo. Quem cuida é o próprio morador. “É aquela coisa do ‘eu mesmo me viro’.  Você acaba dando valores diferentes para as coisas. As pessoas não passam roupa, ninguém liga como você está vestido. Tem miséria, é um governo neoliberal, mas é muito mais pelo social do que aqui (Brasil)”, destaca Marcia. 

Militante política, a escritora disse que foi, por muitas vezes, criticada por estar em Paris e opinar sobre a situação do Brasil. “Moro lá (na França) e continuo sendo brasileira. Passei 60 anos da minha vida aqui. Não tem porque não possa emitir as opiniões. Tem quem ache que você foi para o paraíso, só curte, a vida é bela, não tem mais direito a nada, não pode mais dar palpite. Mas já escrevi opinião política sobre o Egito, por que não posso emitir sobre o meu País? É ridícula essa ideia. Essa e outras questões me motivaram a fazer esse livro”, adianta. Uma leitura imperdível.




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