PLAYGROUND CULTURAL

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Miriam Gimenes

 ESPECIAL

 
PLAYGROUND CULTURAL
 
‘Biblioteca Viva’ traz  não só leitura, mas interação com a comunidade por meio de atividades diversas
 
A primeira biblioteca que se há registro no Brasil data de 1825 e ganhou o nome de  Nacional e Pública do Rio de Janeiro. O acervo foi composto por publicações do rei de Portugal, dom José, trazido por dom João VI, que fugiu de Napoleão Bonaparte, em 1808, em uma das naus de sua comitiva que atracaram na Baía de Todos os Santos. De lá para cá, não só várias outras entidades com o mesmo propósito foram abertas no País – de todos os tamanhos –,  como o seu modelo passou por diversas mudanças, a fim de atender ao público então vigente.
Nesta linha histórica, surgiu, nos últimos anos, no Brasil, o conceito Biblioteca Viva. Nele, o espaço cultural tem de ter como foco as pessoas que atendem – leia-se comunidade –, tornando-se um local de troca de conhecimentos, experiências e saberes. “Em 2005 estava havendo uma discussão nas bibliotecas públicas do Estado de São Paulo, sobre qual tinha de ser o papel de uma biblioteca pública no século XXI. Neste momento, a Secretaria de Estado criou um evento que é o Seminário Internacional Biblioteca Viva para discutir esse conceito, que tem como característica básica tirar a centralidade da biblioteca do acervo e colocar as pessoas da comunidade. E todo resto se constrói em volta disso”, explica o diretor executivo da SP Leituras (Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura), Pierre André Ruprecht. 
A equipe de reportagem da Dia-a-Dia Revista percorreu com o especialista a Biblioteca de São Paulo, gerida pela SP Leituras, e que implementou as diretrizes do conceito desde a sua fundação, em 2010. O prédio foi construído dentro do Parque da Juventude, lugar antes ocupado pela Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Onde só tinha tristeza agora se vê um caminho. 
O local, espaçoso e muito bem organizado, é todo pensado de modo a acolher as pessoas do entorno, inclusive moradores de rua, e proporcionar a todos, de maneira igual, o conhecimento ou ajuda que se faz necessária. “Quando você entra aqui começa a perceber que não tem paredões de livros. A arquitetura já dá a dimensão. O que interessa são as pessoas e o que elas fazem. Todo resto é instrumento: livros, computadores, jogos, brincadeiras. Aqui você vai encontrar muitos usos diferentes para uma biblioteca”, adianta o diretor, que também gerencia a Biblioteca Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros. 
No pavimento de baixo tem espaço para as crianças, biombos para encontros e discussões e jogos. O pavimento mezanino, com foco em adultos, dispõe de coleção de DVDs, centro de distribuição de senhas para computadores, gibiteca, materiais das ciências humanas e literatura, além de espaço de acessibilidade, em que um dos destaques é um óculos com leitor autônomo. “O deficiente visual veste o óculos e todos os funcionários, por exemplo, estão cadastrados. Se a pessoa está passando, é falado o nome para o usuário, que pode chamá-lo, caso necessite de ajuda”, explica o diretor. 
 
 
Bem próximo a este lugar, há uma sala de games, o setor administrativo – com um enorme quadro onde se planeja a programação mensal (no ano cerca de 900 atividades culturais são promovidas no local) –, e, por fim, um deck com vista para o parque. É neste espaço onde também, semanalmente, é feita oficina de ioga, bastante procurada pelos usuários, assim como a que ensina a usar smarthphone, com lista de espera.  
Embora o acervo seja grande, com 42 mil itens – a lista de livros é acrescida semanalmente –, como é fácil notar, o foco não está apenas nele. “Estive há pouco no Congresso Internacional das Bibliotecas (em Atenas), que acontece todo ano, com cerca de 5.000 pessoas. Estavam presentes 140 países e lá dá para ver o que acontece nas bibliotecas no mundo todo. E ainda hoje existem alguns mitos sobre biblioteca, que acabam atrapalhando as pessoas. O primeiro deles é essa coisa de que se trata de um templo sagrado, o reino do silêncio, onde não pode fazer absolutamente nada a não ser ler. Hoje não tem mais biblioteca assim. Para dar certo tem de ser um playground da cultura”, ressalta Ruprecht.
É preciso diversificar a gama de atrativos, portanto. “Não é só leitura. É conhecimento, informação, troca. Na Finlândia acabaram de construir uma biblioteca na praça central de Helsinque, em frente ao Congresso. O papel dela, eles falaram, ‘é juntar as pessoas para contar àqueles caras (políticos) o que nós queremos’. É incrível.” O local também dispõe de oficinas de costura, espaço para ensaios de banda e músicos, equipamentos para impressão 3D e um pequeno cinema.
Ruprecht também cita como exemplo uma biblioteca da Argentina que fica em meio rural. Lá eles contam com um acervo de sementes. O produtor vai lá, escolhe uma delas e conta com um programa por trás, de formação de agricultor. Outra foi construída na Guatemala, país que durante muito tempo viveu sombria ditadura, que proibia até de eles usarem a língua-mãe. “Quando derrubaram a ditadura, essa biblioteca foi criada para restituir o valor do idioma, e quem passou a gerenciá-la foi uma índia.” Ela descobriu o potencial empreendedor das mulheres locais, criou um centro de negócios, e ensinou as participantes a comercializarem. O resultado?
 
 
Vendem hoje a produção artesanal local para o mundo todo.  
“A primeira vez que falei que estava trabalhando aqui (na Biblioteca de São Paulo) me perguntaram ‘como estão lidando com a diminuição de público?’ Eu disse: ‘Desconheço’. No mundo inteiro estão acontecendo dois fenômenos opostos: tem as bibliotecas que estão perdendo público e as que estão ganhando. A diferença básica entre uma e outra é o quanto você põe a comunidade no centro dela”, ressalta o diretor. Nesta unidade do Parque da Juventude, por exemplo, foi feita uma oficina para pais e bebês, chamada Ler no Ninho. Nas primeiras edições, quase ninguém aparecia para participar.  E não se sabia o motivo. Depois de levarem a atividade, que tem contação de histórias, para debaixo de uma grande árvore que fica no parque, bem na frente da biblioteca, viram o público subir. “Pai de filho pequeno acha que criança vai fazer barulho e vai atrapalhar. Não achavam que biblioteca era o lugar deles. Mas falamos: ‘Tem disso também lá dentro do prédio’ e as pessoas foram percebendo que aqui tem lugar para todos. E hoje é uma das atividades que mais recebemos pessoas aqui”, comemora o diretor. 
Por isso, um de seus sonhos é implementar os cases de sucesso que viu no Exterior. Um deles é fazer oficina maker, em que as pessoas possam confeccionar produtos e levar para elas. “Na Villa Lobos começamos com maker de livro. A pessoa faz oficina de texto e depois produz o livro, a encadernação, de forma artesanal, e ele pode ir para prateleira da biblioteca. Estamos pensando em fazer também oficinas de autopublicação, ensinar as pessoas como publicar na internet.” Assim, configura-se o conhecimento desde o livro artesanal até o digital. Outra ideia é dar oficina de games, para que os jovens possam não só fazer os seus, como também avaliar como são feitos os que jogam.
Como pode se ver, não à toa a Biblioteca de São Paulo foi finalista do Prêmio Excelência Internacional do Livro de Londres, no ano passado, e a Villa Lobos foi finalista do mesmo prêmio, neste ano. E o SP Leituras gere também o Siseb (Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo), que integra cerca de 800 bibliotecas municipais, muitas delas no Grande ABC. 
 



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