AO MESTRE COM CARINHO

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Miriam Gimenes

 AO MESTRE COM CARINHO

 
O filósofo, escritor e professor Mario Sergio Cortella reflete sobre as necessidades da educação na atualidade e o papel dos adultos na formação das crianças

É uma quinta-feira qualquer de setembro. Em uma plateia ansiosa, que mais parecia grupo de alunos no primeiro dia de aula, no Teatro São Francisco, na Mooca, o protagonista da manhã aguardava sua hora de falar, sentado na primeira fila. Muitos que estavam nas cadeiras acima o olhavam com admiração. Na verdade, era o encontro inaugural, visto que todos ali presentes nunca tinham tido pessoalmente o convidado ilustre. Bastou ele se levantar e colocar o microfone em punho que todos receberam o mestre com carinho. 
O professor em questão é o filósofo, escritor e educador Mario Sergio Cortella e a plateia, a maioria composta por seus parceiros de profissão – cerca de 300 –, que participaram de palestra promovida pela Vereda Educação, com sede em Santo André e que acaba de abrir duas novas unidades: uma em São Bernardo e outra na Mooca. Com o tema Educação no Século XXI, o também palestrante, que completa 45 anos de docência, fez uma ‘aula expositiva’ durante cronometrada uma hora e meia, período em que levou  os presentes, entre gargalhadas e reflexões, a analisarem o papel do ensino na atualidade e como os adultos podem contribuir para a formação das crianças. 
 
Para tanto, iniciou a conversa com a frase do ator francês Pierre Dac: ‘O futuro é o passado em preparação’.  “Por isso, há uma questão para nós: qual é nosso legado, herança?  Como seremos olhados? Quem voltar ao passado vai nos ver como pessoas que fizeram o que na formação das novas gerações?”, questionou o filósofo. Como base para a conversa que teceu a partir de então, citou três de suas 43 publicações – Nós e a Escola, Agonias e Alegrias; Educação, Convivência e Ética e, por fim, Família – Urgências e Turbulências – e destacou a importância do trabalho de parceria entre casa-escola para que este futuro seja desenhado da melhor forma.
Pai ‘de vários e avô de vários’, como se define, Cortella começou dizendo que cansou de ver pais e mães se subordinarem a seus filhos. “Isto é uma relação de subordinação quase que de submissão a uma nova geração que é magnífica, é especial, mas não pode ser deseducada, não pode ter má-formação em função de pais e mães que se acovardam face à necessidade de ter empenho, esforço e disciplina”, alertou. E revelou que tem muita coisa que, por medo,  não sabe fazer, como dirigir, por exemplo. “Mas não confunda medo com pânico. Medo é estado de alerta. Ter medo de cuidar de criança e adolescente é normal, é uma atividade ultracomplexa. Tem um monte de coisa que não faço (bem). Nem todos de nós têm toda habilidade, a única possibilidade é nos juntarmos.” E acrescenta: “Como diz um dos nossos maiores poetas, Manoel de Barros, ‘tenho o privilégio de não saber quase tudo’. Isto é abrir a cabeça para aquilo que renova a nossa percepção, a nossa vida. Atualizar disponibilidade para conhecer o que ainda não conhece”. É um pensamento que vale para todas as esferas. 
E uma das sugestões que desenhou para os educadores, para que eles consigam chegar ao aluno de maneira permanente, é causar o ‘espanto’. É o que o Aristóteles chamava de admiração (‘mira à distância, olha e se espanta’). “É essencial produzir nos nossos alunos e alunas um afeto pelo conhecimento e o espanto. Isto é, aquilo que encanta. Quantas professoras que você teve que te encantavam? E isso só vai acontecer se a gente se preparar para isso.” Cortella admite, no entanto, que no século XXI é um pouco mais difícil causar tal efeito, até por conta da velocidade das informações, fomentadas pela tecnologia. 
 
 
A escola, ressalta, tem de vencer este desafio. “Tem gente que vem e fala: ‘Ah, essa  molecada não quer saber de nada’. Não é verdade. Estava na Bienal do Livro (no Rio de Janeiro) eu e o (Luiz Felipe) Pondé, lançando um livro chamado Felicidade, Modos de Usar, que fizemos juntos com o Leandro Karnal. Tinha 400 lugares para inscrição. Os convites se esgotaram em 20 minutos e pelo menos 350 dos presentes tinham menos de 25 anos de idade. Essa meninada não quer saber de nada? Alguns. Quando ele se encanta, vem buscar. Quem diria que há 20 anos alguém queria tirar foto com filósofo, antes sinônimo de vagabundagem (risos).” Para conversar com todas as idades, passar a sua percepção dos assuntos, causar reflexão, é importante, aconselha, a ter redes sociais, canal no YouTube, e outros artifícios que agreguem ao trabalho em sala de aula. “Quando a gente olha o novo mundo no século XXI, não podemos ter nem informatofobia (desespero ao mundo digital), e nem podemos também informatolatria (adoração do mundo digital) imaginando que isso vai resolver nossas questões”, ressalta.
Para exemplificar, Cortella contou uma história bonitinha. Sua filha, Ana Carolina, estava dirigindo com os dois filhos no banco de trás. Ele ligou para ela, que não pôde atender, e parou o carro para retornar ao pai. “Disse: ‘Fiquem quietos que vou ligar para o vovô’. Daí ligou para mim no viva voz e disse: ‘Oi, pai’. Eu pude ouvir o Antonio, de 4 anos, dizer: ‘Meu avô é teu pai?’ (risos). Ele falou como se fossem duas entidades. É aquele espanto, aquilo quando a gente mostra alguma coisa nova, causa um aprendizado.” E acrescenta: “Os alunos de hoje não são mais os mesmos, é absolutamente óbvio. Doença é alguém que sabe que os alunos são os mesmos e continuam dar o mesmo jeito que dava há 20 anos.” 
Quer ser relevante na educação? Cortella aconselha a se afastar de professora ‘velha’. E destaca que o termo não quer dizer idosa. “Não confunda idoso com velho. Idosa tem bastante idade, velho é aquele que não precisa mais aprender. Tem muita gente que é idosa, mas tem muita gente velha. É aquele que fica o tempo todo tentando te desanimar.” Uma das dicas para não envelhecer é,  acima de qualquer coisa, evitar o perecimento da prática, atualizar as raízes. “Preciso ir me atualizando, não descartar o que veio, mas trazer o que ainda faz sentido. Muitos falam que os alunos não gostam da escola. Não é verdade, eles adoram. Têm dificuldade com nossas aulas. Você pega um menino de 14 anos, com hormônios fervendo, coloca durante horas sentado em um mundo de mobilidade e conectividade. Se ele puder, escapa. Só não escapa porque tem a arquitetura escolar à prova de fuga. Essa nova geração não quer saber de nada? Ou será que a gente não fez ponte?”
Cortella lembra que um de seus professores, de matemática, ao ensinar a ‘raíz quadrada do delta’, foi questionado. “Perguntei: ‘Para quê serve isso?’ Ele disse algo decisivo na minha formação: ‘Um dia você vai saber’. E até hoje  não sei. Ele me mostrou o que nunca fazer com um aluno meu.” O segredo, acrescenta, é conectar conteúdo com a circunstância do aluno. E para isso tem de conhecê-lo. “Acordo todo dia às 4h da manhã e uma das coisas que faço é  ouvir música, das 5h às 5h30. Não a que eu curto, mas a que não conheço. Qual a que ouço? A que eles (alunos) estão ouvindo, vou atrás. Se eu não souber o que os emociona, como vou escrever livro, dar aula, como chego até ele?” O escritor dá aula para universitários.
A escola, acrescenta, também tem de deixar no passado o autoritarismo e trazer a autoridade. “A sala de aula não é um lugar democrático, assim como a família não é democracia. Tem quem  manda. Há pais e mães que acham que a família tem de ser democrática, mas o que tem de ser é a sociedade. Perguntam:  ‘Onde vocês querem comer, o que vocês querem fazer, onde querem ir?’ Claro que participar é bom, mas submissão é uma coisa perigosa. Acaba gerando uma geração que ao chegar na escola não tem ideia de esforço. Aliás, tem menino de 20 anos que nunca lavou uma louça, nunca arrumou o quarto dele, e a mãe fala: ‘Não quero que ele sofra’. Essa criança criada assim, o primeiro adulto que ela encontra que dá ordem é na escola. E o que ela faz? Parte para cima.” É preciso deixar os papéis bem claros, seja na sociedade, na escola e, principalmente, dentro de casa. Além de, é claro, fazer a autoanálise, sempre. “Como escreveu Clarice Lispector, ‘o melhor de mim é aquilo que ainda não sei’. Me renova, me reinventa, me recria. Não é porque você fez algo durante 20 anos que está apto a continuar fazendo”, finaliza. ‘Bateu’ o sinal.
 
 
 



Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2019. Todos os direitos reservados