Liberdade, igualdade e distorção

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Daniela Pegoraro

Depois de dois anos fora dos palcos, Pitty volta a se apresentar em turnê que  explora suas raízes e usa de sua autonomia para falar sobre o que pensa na TV

É fazendo alusão ao lema da Revolução Francesa (1789-1799) – Liberté, Egalité, Fraternité – que a cantora baiana Pitty, 41 anos, descreve a nova fase musical que está vivendo. Em palavras traduzidas, é o momento que ela prima pela sua liberdade, musical e de expressão;  igualdade, já que conquistou o espaço em um cenário dominado pelos homens; e, ao invés da fraternidade, adaptou para distorção – palavra recorrente na música –, a fim de alertar para que se espere algo diferente em seu trabalho a partir de agora. 

Dona de letras que carregam críticas sociais e de composições que marcaram a cena do rock brasileiro, a artista começou a construir sua carreira em 2003, quando lançou o primeiro álbum Admirável Chip Novo.  Após o nascimento da filha Madalena, a cantora decidiu dar um tempo dos palcos para se dedicar à maternidade. Hoje, dois anos depois do hiato, Pitty está de volta com a turnê Matriz. “Senti que era hora de voltar, estava com muita saudade de me apresentar. Já tinha uma turnê bem desenhada na minha cabeça em termos de ideia e conceito, e a Madalena já estava mais independente”, conta a artista.

Diferentemente do que a cantora costuma trazer em seus shows, acrescentou neste músicas em acústico, o uso programação e ilustrações de fundo da artista plástica argentina Eva Uviedo. “Decidi colocar o acústico para trazer a gênese das composições e transportar as pessoas para o meu quartinho dos fundos, em Salvador. Fui percebendo que se chamava Matriz, porque tinha a ver com o alicerce, com a pedra fundamental da minha criação, mas traduzido para o momento atual”, explica Pitty. 

No repertório, apresenta músicas inéditas e aquelas a acompanharam por toda a carreira, desde as mais icônicas como Na Sua Estante e Equalize. Também toca a faixa Dançando, de seu projeto paralelo intitulado Agridoce, o qual trabalhou em dueto com o cantor Martin no ano de 2011. A turnê Matriz passa, inclusive, por São Bernardo no dia 24, na Associação dos Funcionários Públicos. “Que bom que vamos passar pelo Grande ABC, é uma região que tenho memória de shows épicos desde o começo da carreira. Tem um público muito roqueiro e quente”, comenta.

O que mais se difere, no entanto, é o modelo de divulgação das canções. Anteriormente, a estratégia era lançar um álbum e partir para uma turnê com repertório completo. Desta vez, fez-se o caminho contrário: as músicas serão apresentadas nos próprios shows, pouco a pouco. Até então, duas faixas já foram lançadas em formato de single. A primeira delas foi Contramão, com participação de Tássia Reis e Emmily Barreto, com forte presença do pop. E explorando diferentes sonoridades veio a canção Te Conecta, ritmada no reggae. “Tive vontade de experimentar. Na verdade, essas músicas fazem parte de toda minha história, elas estão nessa matriz que estou falando. O refrão de Contramão foi feito há muitos anos, e na primeira demo que mandei para gravadora tinha uma composição minha que era um reggae. Tudo isso está aqui há tempos, mas as pessoas ainda não tinham visto”, explica.

O álbum novo será o quinto gravado pela cantora depois de Sete Vidas, lançado há quatro anos. Em processo de produção, o trabalho ainda não tem título e nem data definida de lançamento. “Já tenho material suficiente, mas me deu vontade de fazer mais. Por isso não quero colocar uma data, porque isso limita a criação. Vou deixar rolar mais um pouco”, conta. Ela acrescenta que o trabalho está sendo realizado de uma maneira que nunca havia feito anteriormente, em diferentes estúdios, cidades, momentos e com participação de múltiplos profissionais.

DO INÍCIO

Pitty, apelido de Priscilla Novaes Leone, vem de uma cena de rock que era forte, principalmente à época dos anos 2000. Começou a  se interessar pela música por influência de seu pai, que na época trabalhava como dono de bar e, paralelamente, fazia apresentações compostas por repertórios de Raul Seixas, Elvis Presley e Beatles. Apaixonada pelo rock, a cantora passou a acompanhar bandas baianas do estilo, e tomou aquilo como profissão. Entre 1997 e 1999, integrou pela primeira vez  a banda Shes, atuando como baterista. Ao mesmo tempo, assumiu o vocal no grupo Inkoma, que durou até 2001, quando foi procurada pelo produtor musical da banda Raimundos com proposta de um novo projeto. Seu primeiro álbum solo Admirável Chip Novo foi lançado dois anos depois,  responsável por mais de 800 milhões de vendas, tornando-se assim o disco do gênero mais popular naquele ano. 

Atualmente, Pitty reconhece que o cenário é diferente, mas não necessariamente ruim. “As mídias mudaram, o jeito de se escutar música mudou muito, mas o rock sempre tem seu espaço e público fiel. Nunca me prendi a nada, e isso é massa porque meu trabalho independe de onda, de momento. Sou do rock, mas isso não me limita, transito por muitos lugares”, comenta a cantora. 

Desde o início da carreira, a própria artista percebe que seu trabalho está em constante mudança. “Comparando, acho que existem grandes diferenças estéticas, líricas, de pesquisa de timbres e formas de gravar; e acho que existe uma coisa que amarra isso tudo: a essência”, conta Pitty, enxergando positividade e amadurecimento de suas canções. “É importante mudar, crescer, aprender a cada disco, experimentar como artista. Se não você fica ali, parado no tempo, mofando. E ao mesmo tempo é importante ter confiança nessa essência que te permite experimentar sem deixar de ser coerente artisticamente”. 

NA TELA

Embora tenha ficado afastada dos palcos, a figura de Pitty sempre esteve presente para o público brasileiro. Desde 2017, a cantora integra o elenco de apresentadoras do programa Saia Justa, no canal GNT. Ao lado de Gaby Amarantos, da jornalista Astrid Fontenelle e da atriz e autora Mônica Martelli, a programação em estilo talk show consiste em uma roda de conversa sobre os mais variados assuntos: relacionamentos, saúde, filhos, política, economia, comida, sexo, trabalho ou espiritualidade. “Estou adorando. É uma oportunidade de aprender, de me informar sobre assuntos diversos, já que toda semana são três pautas diferentes que faço questão de pesquisar e estudar. E também é a oportunidade de me comunicar com o público de uma outra maneira”. O programa vai ao ar todas as quartas-feiras, às 21h30. 

A artista faz questão de utilizar do canal de comunicação para introduzir assuntos como preconceitos e homofobia. Recentemente, viralizou nas redes sociais uma das das falas da cantora no programa em que se discutia a chamada ‘cura gay’: “Acho legítimo e tem que ser defendido a liberdade da pessoa querer fazer o que ela quiser, se ela está incomodada. A minha pergunta vem antes: de onde vem esse incômodo? Porque ela acha que o que ela está vivendo é uma aberração? O problema é o preconceito. A gente tem de fazer essas pessoas se sentirem confortáveis em suas peles”, disse a cantora em programa que foi ao ar em 20 de outubro. 

A respeito de suas declarações, Pitty as enxerga de extrema importância, e sem receio de se posicionar. “Todo diálogo, debate, reflexão é importante para nós como sociedade. Temos de conversar sobre essas e outras questões que dizem respeito a convivência. É importante trazer à tona esses assuntos em todos os espaços”. Assim como prega liberdade e igualdade no trabalho, a cantora carrega esses valores para todas as áreas não só de sua vida, como para do ser humano como um todo.

 

 

 




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