Paixão pela arte

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Daniela Pegoraro

O ator Renato Góes, que no cinema interpreta o músico Marcelo D2, prima por  obras que conversem com a realidade brasileira e informem o público 

“O ator deve trabalhar a vida inteira, cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons, desenvolver seu caráter; jamais deverá se desesperar e nunca renunciar e este objetivo primordial: amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo.” A frase do ator e diretor russo Constantin Stanislavski (1863-1938) mostra, de maneira enfática, que cultivar uma carreira no mundo artístico não é tarefa fácil. Ascender neste ofício requer trabalho duro e completo envolvimento com a obra e é nesse sentido em que o ator pernambucano Renato Góes tem trabalhado nos últimos anos. Com apenas 31 anos, carrega currículo com participações de destaque em peças teatrais, novelas e cinema. Entre os mais recentes trabalhos protagonizou a série da Rede Globo Os Dias Eram Assim, que tratou sobre as agruras sofridas pelos brasileiros à época da ditadura militar (1964-1985), e o longa Legalize Já – Amizade Nunca Morre, cinebiografia da origem da banda Planet Hemp, em cartaz nos cinemas. 

E basta observá-lo por um momento que fica claro: o trabalho como ator é levado sempre a sério. Ele conta que nunca precisou pensar na carreira que seguiria – a certeza lhe veio de forma natural –, e não cogitou em momento algum atuar em outra área, embora já tenha cursado Comunicação Social por dois anos, a fim de que lhe servisse como complemento para a profissão que segue. “Hoje faço o curso de História para embasamento. Em qualquer situação e roteiro terei referências”, explica Góes, em entrevista para a Dia-a-Dia. 

Essa paixão pelas artes cênicas começou aos 15, quando trabalhava fazendo a figuração de comerciais em sua cidade natal, Recife. “Quis entender como poderia ser aquele cara que tinha a fala. Me explicaram que era papel do ator, e foi quando comecei a procurar cursos de teatro”, lembra o artista. Desde então, não parou, e migrou pelas diferentes áreas da atuação. Desde a adolescência sonhava em estar no eixo Rio-São Paulo para encontrar maior acesso a todos os nichos de trabalho. Ele conta que, se em um cenário extremista tivesse de escolher apenas uma área para atuar, esta seria na sétima arte. “No cinema você consegue fazer cada dia diferente, mas com timing e construção próximos ao teatro. Na televisão é mais avassalador, é preciso estar focado, porque chegam a ser 30 cenas a gravar em apenas um dia”, conta Góes, que acrescenta não estar disposto a abrir mão de nenhuma das linguagens, porque em cada uma delas sente-se satisfeito. 

Um de seus deleites, o qual considera como ponto de ascensão na profissão, é a peça A Paixão de Cristo. Encenada na capital pernambucana, fez parte do elenco por cinco anos seguidos, dando vida ao apóstolo João. “O espetáculo fez com que as pessoas em Recife soubessem o ator que eu era, além de me apresentar a artistas do Rio de Janeiro. Demorou um tempo para as pessoas entenderem que eu estava livre no mercado”, relembra. Estreou a carreira televisiva em 2006, interpretando a versão jovem do personagem Lance em Pé Na Jaca (2006), já na Globo. Passou por novelas como Cordel Encantado (2011) e Joia Rara (2013), e foi sósia de Cauã Reymond na minissérie Dois Irmãos (2017). Este último trabalho, gravado em 2015, foi crucial para que Góes fosse convidado a interpretar o mocinho Santos dos Anjos na primeira fase de Velho Chico (2015).  

Mas, sem dúvidas, o ator atingiu o ápice com a participação na série televisiva Os Dias Eram Assim, onde deu vida ao protagonista Renato Reis. A produção de cunho político durou até setembro do ano passado, e recontou a época da ditadura militar no Brasil. “A série foi um serviço para as pessoas relembrarem da injustiça cometida naquela época. Acho que foi primordial e em um momento certíssimo, além das coincidências mais do que pontuais. Em uma sexta-feira foi ao ar os personagens gritando pela Diretas Já, e no domingo aconteceu uma passeata igual que moveu o Brasil inteiro”, comenta o ator, lembrando de manifestações contra a gestão do presidente Michel Temer, em 2017.  “Algo que estava escrito há mais de um ano, de repente casou com o que estava acontecendo. O povo foi para a rua, assim como os personagens na ficção foram.”

Com experiência crescente, o ator recentemente encarou o que considerou um de seus maiores desafios: encarnar Marcelo D2 no longa Legalize Já – Amizade Nunca Morre. A produção, que teve estreia em outubro, traça a formação da banda nacional de rap rock Planet Hemp, assim como a relação profunda entre seus dois fundadores, Marcelo e Skunk (interpretado por Ícaro Silva, de São Bernardo). “Foi uma experiência muito prazerosa, mas extremamente trabalhosa também”, explica Góes. 

Em preparação para o personagem, chegou a morar nos bairros onde o cantor passou (Catete e Santo Cristo), além de criar banda própria e passar cerca de oito meses em estúdio de som, tocando apenas faixas do Planet Hemp. “Era preciso ganhar musicalidade, um sotaque carioca. Foi uma forma de ir me adaptando, me enquadrando. A ideia inicialmente era de apenas um preparo para cantar, mas acabou sendo processo de construção.” O ator ainda acrescenta que a trama do filme não se limita apenas a retratar o cenário musical, mas também o político e emocional em diálogo com o momento atual do Brasil. “Apesar de ser uma história triste, você sai acreditando que as coisas podem dar certo”, comenta.

AO FUTURO

Trabalho é algo constante na vida de Góes, mas tudo em seu devido equilíbrio. O ator conta que já houve tempo em que gravou filmes ao mesmo tempo de uma novela, e os resultados em questão de foco e exaustão não foram dos melhores. “O problema é tentar conciliar e fazer boas escolhas. Hoje gosto de focar no trabalho, ter um tempo antes para realmente me dedicar a ele”, explica. 

O artista já tem dois filmes rodados a serem lançados. O primeiro deles é o thriller Macabro, dirigido por Marcos Prado, o qual conta a história real da investigação dos crimes cometidos pelos irmãos Ibraim e Henrique de Oliveira em Nova Friburgo, nos anos de 1990. No longa – ainda sem data de estreia –, Renato interpreta o sargento Téo. Já o segundo se trata de documentário sobre liberação do corpo da mulher, intitulado provisoriamente de Paixão Nacional e dirigido por Theresa Jessouron. E, para completar as produções cinematográficas, Góes está gravando um terceiro filme, no qual dá vida ao personagem Fabiano: O Riso de Ariano, um longa de José Eduardo Belmonte baseado nas aulas-espetáculo do escritor Ariano Suassuna.

E no ano que vem o ator ainda volta a estrela na programação televisiva da Globo como o personagem principal Jammil, da próxima novela das 18h, ainda sem título oficialmente definido. O folhetim fala sobre refugiados sírios, tal como a situação dos países em guerra. “Quando você consegue transformar sua arte em serviço, ela se torna mais prazerosa, tanto de se dedicar quando o que você consegue causar com ela. Fiquei feliz de saber que esse próximo trabalho também vai ter uma coisa legal a ser dita, e é isso que me motiva”, comenta o artista. Seu personagem é o braço direito de um poderoso sheik árabe, mas acaba se apaixonando por uma refugiada. A história se passa por diferentes localidades: na Síria, no Líbano, na Grécia e, por fim, no Brasil. 

Renato ainda ressalta a importância de ter uma novela abordando tal assunto. “Por exemplo, São Paulo já tem essa conscientização de abrir os braços e receber, e talvez seja uma forma de o Brasil inteiro entender que é necessário abraçar esses irmãos que estão precisando mesmo e que passam uma batalha gigantesca para chegar até aqui”. Ainda que existam projetos, o futuro é incerto, mas o de Renato dá para arriscar um palpite: nas telinhas e telonas, de algum modo, seu rosto estará estampado. Isso porque, assim como sugeriu Stanislavski, não lhe faltam dedicação e paixão pela arte.

 



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