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Miriam Gimenes

Soninha Francine, vereadora de São Paulo, lança livro em que fala sobre história de amor com ex-morador de rua

Cada um lembra de Soninha Francine por um ‘setor’ de sua vida. Há quem se recorde dela como VJ da MTV (de 1994 a 2004), ou pelas declarações polêmicas que já deu – uma delas quando admitiu ser usuária de maconha. Existe um terceiro grupo que aponta seu engajamento político antes e depois de ocupar cargo público. O fato é que ela redesenha toda sua trajetória, englobando esses e outros assuntos, no recém-lançado Dizendo a Que Veio (Editora Tordesilhas, 176 páginas, R$ 29,90).

Entre as histórias que relembra neste livro, está a de seu mais recente caso de amor, vivido com um ex-morador de rua. Ela conheceu Paulo Sérgio Rodrigues Martins durante a ação de uma ONG que fundou com amigas do templo budista e, de cara, se apaixonou. O sentimento não foi recíproco e a vereadora não titubeou em conquistá-lo. A batalha não foi fácil, mas conseguiu não só ganhar seu coração, como também o ajudou a vencer o alcoolismo e, juntos, formaram família. Ela conta um pouco deste romance no relato a seguir:

“Conheci o Paulo (Sérgio Rodrigues Martins) debaixo de um viaduto, durante atividade da Casa Bodisatva, ONG que fundei com amigas do templo budista. Saímos pelo centro da cidade fazendo amizade, ouvindo, falando, acompanhando e ajudando no que pudermos. No primeiro contato, ele não deu a menor confiança, estava sem um pingo de disposição para novos amigos – mesmo assim, me apaixonei por ele naquele dia. Fui para casa eufórica, nem eu acreditava que meu coração tinha disparado por um cara sujo, desdentado, há 20 anos morando na rua.

Ele demorou mais para se interessar por mim. Não via a menor graça naquela ‘baixinha invocada’. E não sabe explicar como foi que mudou de ideia. Passaram-se semanas até que nós ficássemos juntos, outras tantas até que ele fosse à minha casa e meses até que as pessoas mais próximas aceitassem ou se conformassem com a ideia de que aquele era meu novo companheiro.

Levar o Paulo comigo nos compromissos é sempre arriscado. Ele me faz lembrar da impaciência e impertinência de minhas filhas pequenas nos muitos debates, filmagens, palestras e reuniões a que foram carregadas sem poder resistir: “Falta muito? Está acabando? Não aguento mais esse cara falando”, reclamavam em voz alta o suficiente para os outros ouvirem. Paulo faz igual.

Em um domingo à tarde, sentou-se inquieto durante a conversa com o repórter de um jornal em uma padaria, enquanto eu contava detalhes da minha demissão pelo (João) Doria (ela foi, por 110 dias, Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social na gestão do tucano). O jornalista, gentil, percebeu a mal disfarçada pressa e garantiu a ele, várias vezes: “A gente já vai terminar”. Antes de concluir, perguntou, com curiosidade jornalística e cortesia, quem ele era – e descobriu o que não protegia como segredo, mas também não saía divulgando: Paulo Sergio é meu marido, inevitavelmente acompanhado da descrição ‘ex-morador-de-rua’.

Meu silêncio era, em certa medida, para protegê-lo das reações nem sempre positivas das pessoas. Mas permitir que os outros conhecessem sua história esclareceu muita coisa e acabou gerando mais compreensão e solidariedade. Muitos olhares se suavizaram e passaram a relevar algumas de suas ações e reações meio fora do padrão.

A revelação do meu relacionamento no jornal aconteceu no ano passado, quando já completava três anos. Semanas depois a Isa Pessoa, editora por trás de algumas histórias fortes, como a do médico que inspirou a série Sob Pressão, perguntou se eu topava ‘virar livro’. Ela também queria saber mais sobre aborto (Soninha admitiu ter abortado sua terceira gravidez), filhas, televisão, maconha, PT, tucanos, além de percalços e polêmicas que o Google ajudava a reunir. Topei na hora.

Histórias de outras pessoas me ajudaram quando a Julia teve leucemia, quando engravidei aos 16 e quando descobri que tinha depressão pós-parto. Me inspiraram a dar a entrevista sobre maconha que causou minha demissão da TV Cultura, a voltar a estudar após ser mãe. Então contei a minha e espero, sinceramente, que seja um alento para outras pessoas que se identifiquem com ela e, para todas as que se interessem, uma leitura prazerosa. Sou feliz por ter vivido e também por ter escrito.




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