Não é brincadeira!

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Vinícius Castelli

Caracterizado pela prática de atos de violência física ou psicológica, bullying – que está longe de ser só coisa de criança – pode causar graves consequências.

Uma brincadeirinha aqui, outra tiração de sarro ali. A pessoa que não tem cabelo liso sendo ridicularizada. Ou alguém se referindo a um negro com desmerecimento por conta da cor de sua pele. Nordestinos e estrangeiros, também sofrem. Gays, então, nem se fala, com brincadeiras de homens confabulando se o colega é ativo ou passivo. Como se isso importasse de fato. Quem é que nunca viu, ou soube, de alguém acima do peso que foi motivo de chacota. As mulheres também não escapam. Elas estão várias vezes na boca do povo, principalmente quando o assunto é sexo ou seus corpos. Tão comum escutar pessoas depreciando a garota que saiu com beltrano e ciclano. Ou aquele constante constrangimento de dois ou três homens juntos falando da companheira passante. E assim caminha a desumanidade.

Desmerecer alguém por ser diferente de alguma forma, ou por ter alguma necessidade especial, por exemplo, pode deixar para sempre marcas na vida de uma pessoa. Parece besteira, mas não é. De acordo com o MEC (Ministério da Educação), um em cada dez estudantes no Brasil é vítima de bullying. Isso aconteceu com o craque da seleção portuguesa Cristiano Ronaldo, que quase desistiu de ser jogador de futebol por conta das tirações de sarro de seu sotaque, diferente do modo como se fala na capital de Portugal. Felizmente ele superou, seguiu adiante e se tornou quem é. Bullying é assunto, inclusive, que está sendo debatido na série 13 Reasons Why, da plataforma de streaming Netflix, que chega agora à segunda temporada. A obra conta a história da personagem Hanna Baker, estudante de 17 anos que tirou a própria vida após ser ridicularizada, diminuída e estuprada.

O ato de agredir alguém de forma verbal, física ou psicológica ao ponto de causar humilhação e discriminação perdura, muitas vezes, na vida adulta, só muda de endereço: da escola para o ambiente de trabalho, por exemplo. Qual é o limite da brincadeirinha? Recentemente vimos nas redes sociais vídeos feitos por torcedores brasileiros na Rússia expondo mulher de outra nacionalidade quando dizem palavras ofensivas para ela. Entre os assediadores estava um jornalista de São Bernardo, um ex-secretário de Turismo de Ipojuca (Pernambuco) e um supervisor de aeroporto, que foi demitido da empresa após o ocorrido.

Valter Sousa Rege, 34, de Diadema, é exemplo de quem já passou situações de bullying na vida adulta. Cineasta, negro, periférico e gay, sofreu diversas microagressões. Já lhe disseram para cortar o cabelo (por ser crespo) e teve sua sexualidade exposta. Nem o ambiente de trabalho o poupou. Foi chamado de macaco – por conta da cor de sua pele – por um diretor. “Ali eu descobri que o preconceito racial só vem à tona no momento de raiva. E como somos inviabilizados, pois nem empresa nem diretor achavam que era grave”, explica Rege.

Ele conta que o assediador em questão sempre o agredia, perguntando se era passivo ou ativo, em relação ao sexo e por ser gay. “Héteros não sabem o limite das brincadeiras”, afirma. “No dia em que me chamou de macaco ele estava nervoso. Mas o que se leva em consideração, nesse caso, é que nem ele nem a empresa acharam que o fato de me chamar de macaco era algo grave, tanto que dei uma semana para eles se desculparem e isso não aconteceu”, explica. O pedido de desculpas aconteceu somente após conciliação judicial.

Para Rege, as pessoas dizem o que querem, no calor da situação, e depois colocam a culpa na bebida, no momento, na raiva, “mas nunca assumem o quanto são preconceituosos e cruéis, e o quanto isso ataca a nossa autoestima”, afirma. “Ser negro e periférico é ser constantemente violado”. Prova disso é que até hoje ele sente dificuldade para seguir com carreira profissional. “Nunca tive chance no mercado audiovisual porque as empresas são completamente racistas. No Brasil, apenas 2% de negros dirigem ou escrevem para o cinema comercial”. Para combater o preconceito, o cineasta vai as escolas, ONGs e espaços socioeducativos para apresentar a palestra Da Favela Para as Telas. “O retorno é muito positivo.”

Segundo a psicóloga de São Caetano Luísa Chiocheti, convencer as pessoas de que essa prática não é boa é um processo difícil, pois envolve a consciência de cada um. “Dentro de um ambiente corporativo, por exemplo, é importante o movimento de uma liderança que boicote atitudes como essas. Um bom caminho é a prática da empatia, pois colocando-se no lugar do outro fica um pouco mais fácil de não compactuar com a prática do bullying”, diz. Ela acredita que se cada um parar de propagar pequenas atitudes agressoras, ainda que seja algo sutil, em algum momento o movimento pode perder sua força.

Luísa alerta que atitudes em ambientes profissionais como isolar um colega, fazer fofocas, discriminar por sua orientação sexual ou religião, boicotar em reuniões, fazer alguma brincadeira com o objetivo de prejudicar a autoconfiança para se sobressair, dentre outras situações podem ser características de bullying. A psicóloga diz ainda que esse tipo de agressão pode causar no indivíduo sintomas como diminuição da autoconfiança, problemas com a autoimagem e autoestima, tornar-se agressivo como forma de defesa, ficar deprimido ou ansioso.

Segundo Célia Regina Nilander de Sousa, advogada, mestre em Direito Penal e professora na Faculdade de Direito de São Bernardo, a prática do bullying hoje é algo que se faz muito presente nas relações, nos ambientes profissionais, podendo ser verificado por meio das críticas, acusações, fofocas, assédios, intimidações, agressões, ironias, assédios sexuais etc.

Ela explica que esta prática chama-se work place bullying, e as piadas são feitas com o objetivo de ferir a autoconfiança alheia e humilhar colegas de trabalho. “Não constitui um crime específico descrito no Código Penal, porém, as condutas praticadas estão na lei penal como a agressão física, psicológica, constrangimento, crimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação), estão no Código Civil, que diz que comete ato ilícito toda pessoa que por ação ou omissão, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outra pessoa”, explica.

Na esfera trabalhista, segundo a professora, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) apresenta punições administrativas contra o assédio moral. “No caso de bullying a pessoa deve denunciar, procurar um advogado para orientações a respeito do caso, pois se estivermos diante de uma injúria, por exemplo, deverá ingressar com queixa, por se tratar de crime de ação penal privada.”

Não ter um corpo padrão faz com que a publicitária Andréa Gouvêa, 30, ainda seja alvo de comentários e brincadeiras. Na escola, durante a infância, sofreu com isso. Na adolescência a situação não mudou muito e, na vida adulta, por mais que as pessoas digam não ter preconceitos, para Andréa elas têm. As brincadeirinhas, no caso, se referem sobre o tipo de comportamento esperado de uma pessoa acima do peso, que são a preguiça e descontrole alimentar. “Esse estereótipo de gordo estar ligado ao descontrole me ofende muito”, diz ela. Hoje eu tento educar e explicar por que é errado ter esta visão, mas as pessoas ainda se apegam muito ao que veem e pouco ao que sabem realmente sobre uma pessoa”, afirma.

“Eu sempre sofri e sofrerei coisas do tipo”. Quantas e quantas vezes ela ouviu piadinhas de mau gosto, agora, na vida adulta, sobre seu tamanho quando se agacha para amarrar os sapatos, por exemplo. “Ouço comentários diários de como emagrecer e sobre a minha saúde, mesmo sem a pessoa conhecer um dia da minha rotina”, explica. Para a publicitária, o que muda na vida adulta é que quem passa por isso acaba aprendendo a lidar e a não tolerar alguns tipos de situações.

Andréa, aliás, repudia o ato acontecido na Rússia. Para ela, o comportamento dos homens que aparecem no vídeo é absolutamente errado. “Expor uma mulher desta maneira, falando sobre o corpo dela, em uma língua que ela não entende, e ainda querer dizer que é só de brincadeira, que não precisa tudo isso, é tão errado quanto. A retaliação sofrida pelo grupo mostra que as pessoas estão tomando noção da proporção do quanto é errado submeter pessoas a isso”, diz.

De acordo com o psicólogo de São Bernardo André Correia, o bullying geralmente é identificado entre crianças e adolescentes, mas é muito comum que aconteça depois também. “Porém, esse é um pouco mais difícil de identificar, pois a vítima, já independente, geralmente esconde suas dores dos demais”, explica. O psicólogo afirma que em sua profissão é comum se deparar com pessoas que sofram consequências por conta das tais brincadeirinhas. "Adolescentes que passam por violências nas escolas, homens adultos chacoteados e excluídos de eventos sociais devido aos seus comportamentos religiosos etc. Na vida adulta, o bullying por vezes tem início em comportamentos homofóbicos, racistas e preconceituosos por diversas formas", diz.

De acordo com o promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais Lélio Braga Calhau, que assina o livro Bullying: O Que Você Precisa Saber (Editora Rodapé), "nunca existem brincadeiras quando alguém está sofrendo. O tema é algo sério, que causa inúmeros danos”, alerta. Ele explica que, normalmente, os casos envolvem ações repetitivas contra a mesma vítima num período prolongado de tempo; promove desequilíbrio de poder, isso faz com que a defesa da vítima seja dificultada.

O escritor alerta ainda para o ciberbullying, que é quando cometido em ambiente virtual. Ele explica que isso dá ao agressor sensação falsa de impunidade. É comum o uso de nomes falsos e até mesmo anonimato para tentar enganar as autoridades. Dependendo do tipo de ataque ou repercussão, as ofensas podem ser reproduzidas muito rapidamente, o que pode causar muito sofrimento emocional para as vítimas. Ainda tem alguma dúvida que já passou da hora de, simplesmente, parar com isso?




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