O futuro é hoje

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Daniela Pegoraro

O aumento da expectativa de vida tem sido, cada vez mais, um desafio para a sociedade, inclusive a brasileira; por isso, é importante envelhecer bem e com saúde. 

Para quem nasce tão pequeno, de pele macia e capaz de caber na palma das mãos, a ideia de envelhecer pode parecer distante. Mas é inevitável. Dias, meses e anos, o tempo passa sem que se perceba, e deixa suas marcas expostas nas rugas, nos cabelos esbranquiçados e no olhar de quem muito já viu. Para alguns, chegar à terceira idade pode significar a reta final da vida, mas há quem prefira encará-la como mais uma fase a ser aproveitada. Para estes, o futuro é hoje. Como discorreu em versos o escritor Albert Camus, quanto mais experiência acumular, melhor: “Envelhecer é o único meio de viver muito tempo. A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém, com muito mais esforço.”

Exemplo disso é Lara Beta. Com 72 anos, é amante das artes: já pintou, trabalhou com artesanato, participou de um grupo de dança e nutre grande paixão pela fotografia. Tinha apenas o Ensino Fundamental completo. Após a morte de seu marido, há um ano, decidiu voltar a estudar na Faculdade Aberta Para a Terceira Idade, um programa privado em São Bernardo que tem aulas das mais variadas, desde história da arte à ioga, e todas elas voltadas ao público idoso. “Aqui tenho grupo de amigos, passeios, viagens. É um meio de ter compromisso consigo mesmo.”

E Lara tem toda a razão. Presidente do Instituto Dias Melhores, Joyce Capelli explica que muitas vezes o idoso acaba se isolando por conta da falta de espaço. “Eles ficam reféns da família, e nem sempre a família tem tempo para eles. Por isso é importante sempre se manter na ativa, levantar da cama e ter algo que te chame para o mundo, para a vida”, comenta. E, embora acredite que os programas de faculdades são de grande ajuda, a especialista não acha que é o suficiente. De acordo com ela, faltam atividades atreladas à saúde e à formação de grupos da terceira idade.

Joyce ainda acrescenta que essa exclusão dos idosos na sociedade vem da cultura moderna de admirar o ‘novo’. “As pessoas veem os idosos fora do nosso mundo atual. Com tanta experiência de vida, eles têm muito o que contribuir”, completa. Para exemplificar, cita o filme Um Senhor Estagiário, em que Robert De Niro interpreta um aposentado que, aos 70, decidiu começar uma nova carreira. “Os idosos podem ser uma referência muito grande para nós”, acrescenta.

A questão da inclusão é de extrema importância. Até porque, de acordo com pesquisa da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, o maior medo do idoso no País é o da solidão. “Ficar só dentro de casa é horrível, a pessoa se sente sozinha. Acho importante sair, viver, se misturar com jovem, com criança, estar nos lugares onde todos estão”, acrescenta Lara. A idosa faz parte do fenômeno de envelhecimento da sociedade. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), só no Estado de São Paulo este ano a população acima de 65 anos corresponde a 9,84% do total. Já em 2030, a projeção é de que esse número aumente significamente para 15,38%. Desta forma, no ano de 2025 o Brasil se coloca em sexto lugar dos países com maior número de idosos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

FÍSICO

Com o aumento da expectativa de vida em 2016 para 75 anos, a principal preocupação é com a qualidade da saúde desse idoso. A imagem que existe da terceira idade é estigmatizada: andar de muletas, ter a memória curta e estar em perigo constante de acidentes e doenças. Mas nessa fase em que grande parte da sociedade vive, e que uma parcela ainda maior se prepara para chegar, é possível existir uma condição de vida melhor? Uma das soluções apontadas é a prevenção. “O corpo se desenvolve até os 30, depois começa o processo de envelhecimento. O segredo é se planejar para o futuro e manter essa nossa reserva funcional do corpo”, explica o geriatra da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) Leonardo Bernal. É exatamente essa a proposta que a OMS apresenta. A organização argumenta que “se quisermos que o envelhecimento seja uma experiência positiva, uma vida mais longa deve ser acompanhada de oportunidades contínuas de saúde, participação e segurança.” Entre as dicas estão caminhada, exercícios cardiovasculares, alongamento e exercícios de equilíbrio. “Também é importante manter o cérebro trabalhando com o xadrez, o baralho, e outros jogos que promovam estímulos cerebrais”, recomenda o geriatra.

A prevenção, portanto, é um projeto para o futuro. Hoje, Joyce enfatiza que as políticas públicas atuais não são suficientes para atender à demanda dos idosos. “Depois dos 60, a pessoa ainda tem muito o que contribuir com a sociedade, mas não encontra o seu espaço. O idoso não pode ser visto como um peso”, explica. Ela ainda acrescenta que essas políticas deveriam ser voltadas à questão da desigualdade social. Por exemplo, a média de esperança de vida no bairro nobre Jardim Paulista, em São Paulo, é de 79 anos. Já em locais periféricos da Capital, como o Jardim Ângela, a expectativa é de apenas 55. “Quanto mais acesso você tem ao sistema de saúde, mais você vive.”

FORÇA

De experiência de vida, e de driblar problemas de saúde, Neide Maria Marques, com seus 68 anos, entende. Trabalhava como auxiliar de enfermagem, porém, no auge de seus 40, a visão começou a se deteriorar. “Nasci com asma. Naquela época me tratavam com cortisona, o que acabou provocando diversos problemas no meu corpo, como a catarata e o glaucoma neovascular”, conta. Hoje ela preserva apenas 16% da visão. Apesar de todas as dificuldades que se colocaram em seu caminho, dona Neide nunca se deixou abater. Se aposentou cedo por conta do problema de saúde, mas continuou a trabalhar para conseguir complementar sua renda. Fazia bicos limpando barraquinhas à beira da praia, no Guarujá. “Tem coisas que marcam a gente. Ouvi uma vez a seguinte frase: ‘Não quero essa mulher trabalhando, aqui não é asilo para cego’. Mas eu não nasci só olho. Nasci cérebro, boca e todo o resto de meu corpo.”

Neide não desistiu. Já abriu uma lanchonete, trabalhou com artesanatos e, hoje, é dona de uma barraquinha de roupas. Mora na casa que anteriormente foi de sua mãe, e está fazendo uma reforma para conseguir receber sua família, de dois filhos e 12 netos, para o almoço de Natal. “Já fiquei muito triste na vida, mas isso sempre me fez lutar ainda mais. A gente não pode deixar a velhice nos dominar, o coração não envelhece.” E é com o coração de uma jovem que Neide continua frequentando bailes, festas, aulas de dança e se reúne com as amigas para conversar todas as semanas.

Quanto ao futuro, se mantém otimista: quer continuar trabalhando, preservar o resto de sua visão e voltar a fazer artesanatos. Em especial, gostaria de encontrar com o namorado, que mora em Portugal, o qual conheceu através do Facebook e mantém um relacionamento à distância há meses. “Se for para recomeçar, vamos recomeçar. Não é a esperança que move o mundo?” Não temos dúvida.

Chinês pediu para ser adotado

Envelhecer com uma vida plena não é nem um pouco fácil, e a questão da saúde nem sempre é o que mais importa. Prova disso é o chinês Han Zicheng, que aos 85 anos colocou a si mesmo para adoção. Em boa forma, não tinha grandes problemas com doenças, mas o que mais lhe incomodava era a solidão. Sua mulher já havia falecido e os filhos moravam longe. Se recusava a ir para um lar de idosos, parava os vizinhos para dizer que tinha medo de morrer sozinho. Recebeu grande atenção da imprensa, ganhou amigos, mas não chegou a ser adotado. Por fim, morreu em março deste ano, no hospital. A situação da China é complexa. No país, a terceira idade já atinge uma porcentagem de 16,7% da população total.

No Japão, a história não é muito diferente. Quase um terço da população – 27% – é de pessoas com mais de 65 anos. Inclusive, há indícios de que idosas estavam cometendo pequenos furtos a fim de serem levadas à cadeia e, assim, combater a solidão. Uma a cada cinco presidiárias faz parte da terceira idade. Para completar, de acordo com o governo de Tóquio, mais da metade desses idosos que são pegos furtando moram sozinhos.

 




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