Respeita o moço

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Marcela Munhoz

Aos 47 anos, Jorge Mário da Silva já viveu, testemunhou, cantou e interpretou de tudo um pouco; das ruas à fama, seu 'lance é seguir sempre aprendendo.

O que lhe vem à cabeça quando se fala Seu Jorge? ‘Burguesinha, burguesinha, burguesinha...’? As cenas de Tropa de Elite 2 (‘Agora vocês vão aprender como se assa um porco’)? As entrevistas sinceras e cheias de opinião que dá na televisão? Os diversos Grammys que já ganhou? A figura alta, de voz grave e imponente? Ou tudo isso e mais um pouco? Seu Jorge realmente pode ser comparado a um grande baú de show de talentos, cheio de surpresas. Ele passeia pela dramaturgia, música e vida real com tanta facilidade que parece estar brincando despretensiosamente com as três filhas, Luz, Maria e Flor. É daqueles artistas completos e que, como tantos outros, não para de trabalhar, de criar. “Estou sempre com músicas novas, vários filmes e a mesma energia de fazer com que a nossa arte aconteça no mundo todo como expressão legítima, importante e soberana”, conta.

Vivendo em ponte-aérea – Seu Jorge mora em Los Angeles, Estados Unidos, há quatro anos – esteve no fim de novembro aqui na região. Fez show no Clube Atlético Aramaçan, em Santo André, com produção da Up Eventos, quando convidou a plateia a entrar no mundo da música, uma das suas vertentes mais descontraídas. Interpretou os maiores sucessos, registrados em sete CDs de estúdio, em cinco ao vivo e outros cinco DVDs. “A música é a possibiliade do encontro com o público, gosto de ver o efeito que ela proporciona. Faço música visando a poesia, a beleza, a descontração e a alegria. Não importa o gênero, tenho ídolos em quase todos”. Chitãozinho e Xororó, Cartola, Bezerra da Silva, Zeca Pagodinho, Bete Carvalho, Sepultura, Planet Hemp, Legião Urbana, Pitty, Yamandu Costa, Charlie Parker, Beethoven, Zeca Pagodinho, Michael Jackson são alguns. E por aí vai. Pixinguinha é outro nome de destaque e por quem o cantor tem grande apreço. Ele viverá o músico, compositor, instrumentista, arranjador e maestro nas telonas, em Pixinguinha – Um Homem Carinhoso, ao lado de Taís Araújo e Lázaro Ramos. Ainda sem previsão de estreia.

Seu Jorge também é o cara das parcerias. Ele acredita que por ser representante da música popular brasileira, todos os cantores e cantoras daqui são como sua família. “E uma celebração poder tocar com outro companheiro. A MPB é meu refúgio, minha segurança. Os artistas são minha casa, meu suporte.” O resultado de uma de suas grandes parcerias musicais foi lançado em 2003. É Isso Aí, com Ana Carolina foi indicada a prêmios e colocou Seu Jorge sob os holofotes, chamou a atenção das pessoas para a sua figura. “Esse encontro foi supernatural e espontâneo, foi uma conexão espiritual”, diz o cantor, que passou 2017 todo, praticamente, viajando o mundo com a turnê The Life Aquatic – nome de um filme, o qual participou em 2004, dirigido por Wes Anderson. Daí surgiu a ideia de fazer uma coletânea de David Bowie em português, músicas que guiaram nos 23 shows nos Estados Unidos, 19 na Europa, sendo dez só em Portugal. Ele apresentou o projeto também na Argentina, Chile e Uruguai.

Mesmo sendo um cidadão do mundo, Seu Jorge nunca descuida ou deixa de lado seu interesse pelo que anda acontecendo no Brasil. Durante a passagem pela região, visitou o acampamento em São Bernardo, a Ocupação Povo Sem Medo, ativa em terreno de construtora desde 1º de setembro. “Acho que se deve fazer justiça ao povo brasileiro e o direito à moradia é universal. Me manifesto a favor de todas as causas do povo”, acredita.

Além de ser uma 'reconexão' com seus valores e raízes, este é mais um exemplo da mistura entre a vida real e a arte de Seu Jorge. É que além de ser uma razão que ele acha legítima, a luta pelos direitos sociais bate com seu novo protagonista no cinema: ninguém menos do que o ativista e líder comunista brasileiro Carlos Marighella (1911-1969). Nascido na Bahia, filho de pai operário italiano e mãe negra da etnia dos Haussás, Marighella era poeta, foi militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e um dos líderes da ALN (Ação Nacional Libertadora). Preso em duas ditaduras, foi torturado e morto aos 57 anos. Para tal papel, Seu Jorge está mergulhado 12 horas por dia até, pelo menos, março de 2018. “(A ocupação) Nos inspira a continuar pensando. Preciso dessas lutas na minha vida”.

O longa, ainda sem data de estreia e baseado no livro Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães, é assinado por Wagner Moura, que faz sua estreia na direção e é um dos ídolos de Seu Jorge, assim como Selton Mello, com quem atua e participa da produção em Soundtrack, que chegou aos cinemas brasileiros em julho. A obra é toda em inglês e conta a história do fotógrafo Cris (Selton), que viaja para uma estação de pesquisa polar. Por lá, pretende fotografar para uma exposição que tem a música como inspiração. Ao lado de Cao (Seu Jorge) e Mark (Ralph Ineson), ele acaba descobrindo novos pontos de vista a respeito da vida e da arte.

Ainda no campo do cinema, o ator, cantor e multi-instrumentista (Seu Jorge toca violão, baixo, cavaquinho, guitarra, percussão e clarinete) está muito empolgado com as gravações do filme Abe, do cineasta Fernando Grostein Andrade (o mesmo da série global Os Carcereiros, que deve estrear no primeiro semestre na Globo). Como colega de elenco, está Noah Schnapp, o Will de Stranger Things, série da NetFlix. “Meu personagem é um chef de cozinha que chama a atenção de um garoto (Noah). Ele vive em uma família multicultural, racial e cheia de desentendimentos. Seu sonho é aprender a cozinhar para fazer um jantar para eles. Foi uma grande supresa esse convite”.

Atuar é uma das principais paixões de Seu Jorge. Para ele, é uma profissão que o estimula a aprender variedade enorme de novas coisas e a participar de centenas de experiências diferentes. “É uma das atividades que mais amo fazer (cinema), porque lá, diferentemente de quando estou no palco cantando, sou mais colaborador. É algo que não está voltado só para mim, mas para contar uma história. Além disso, no fim do processo, levo todo o aprendizado comigo”. E aprende, hein!

Um dragão por dia

A maturidade e a tranquilidade do Seu Jorge – apelido dado pelo músico e ex-baterista da banda O Rappa, Marcelo Yuka, em 1996 – são resultados de 47 anos vividos intensamente. Ele e mais três irmãos (Charles, Vitório e Rogério) nasceram em Belford Roxo, no bairro Gogó da Ema, Rio de Janeiro. Começou a trabalhar aos 10 anos e já fez um pouco de tudo. Foi borracheiro, contínuo, marceneiro e até descascador de batatas em bar.

Também chegou a servir o Exército Brasileiro, mas nunca deixou a música de lado. Lá, inclusive, foi soldado corneteiro. Sempre deu um jeito de fazer parte das rodas de samba, dos bailes funk e de cantar na noite. Após a morte do irmão Vitório em uma chacina e a desarticulação da família, virou sem-teto por sete anos. Nesta época acabou sendo descoberto, por acaso, por grupo de teatro amador. Depois, fez parte da banda Farofa Carioca. Foi quando tudo começou...

 



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