Pelas ruas da vida

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Vinícius Castelli

Amizade entre sem-teto e pastor nasce em Santo André; dupla conhecia moradores assassinados.

Gilson Lima, 54, tem as mãos calejadas, resultado de trabalho pesado. Passa o dia, faça chuva ou sol, pelas ruas, com sua carroça, em busca de material – papelão, principalmente – para pagar pela sobrevivência. Cobre e alumínio rendem mais, mas são raros de se achar por aí. Quando não trabalha não se sente completo. Com o dinheiro que ganha honestamente compra comida. Na maioria das vezes, precisa reparti-la para sobrar algo para o dia seguinte. “Como fria mesmo, já acostumei. O pessoal diz que não faz bem, mas nunca me aconteceu nada”, jura. Sua vida é de batalha. Levanta, toma café em uma lanchonete simples e vai trabalhar. Pausa para o almoço e volta ao batente, como todo mundo. Faz pesagem do material que recolhe entre uma e duas vezes ao dia. “Se hoje ganhar menos sei que amanhã será melhor”, diz confiante. Todo começo de noite ajeita sua cama em lugar que considera ‘menos perigoso’. Lima mora por aí, em Santo André.

Ele nasceu em Londrina, Paraná. Estudou até a 3ª série e teve aulas de música, algo que, aliás, adora. Largou a escola para trabalhar na roça após a morte do pai, vítima de infarto. Aos 15 anos, com a família abalada, veio para São Paulo, acompanhado da mãe e irmãos. Desde então, não voltou mais para suas origens. Gilson Lima não contou com as oportunidades que sobra para um bocado de gente, mas, ainda assim, até poderia ter tido vida um tanto mais tranquila. O destino, porém, fez do céu o seu teto. Tudo começou a sair dos trilhos por conta do vício em bebida alcoólica. “Morava com minha família, mas ninguém me suportava mais. Bebia muito, todo dia, toda hora”, confessa.

Muitas vezes, na correria, ou até mesmo por falta de interesse do que não é parte da nossa vida, passamos por diversos ‘Limas’ pelas ruas. Caminhamos sem sequer nos darmos conta de que é possível, com um gesto, fazer a diferença para alguém. E foi isso o que aconteceu quando o andreense Fábio Boróh de Almeida, 51, se deparou com o catador. Passou, o viu solitário, abatido, sem rumo. Parou o carro e resolveu dar algo a Lima que há muito ninguém oferecia: boa conversa e abraço apertado.

A história de amizade com Almeida – que tem apenas três anos a menos do que Lima e poderia muito bem (por que não?) ser um irmão mais novo, um primo querido – começou há quase 15 anos. Os dois não têm parentesco, mas escolheram estar presentes um no caminho do outro. “Ele era doente, vivia cheio de hematomas, feridas e bebia muito. É uma ‘ovelha’ e eu choro por essas vidas”, conta Almeida, que é pastor no Templo Apostólico Céu Aberto.

Foi difícil, mas o morador de rua não coloca um gole de álcool na boca há dois anos. “O médico disse que se não parasse viveria só três meses. Então, parei”, diz ele, que sofria de cirrose. “Antes as crianças tinham medo de mim. Hoje elas sorriem”, celebra. Como todo amigo, o pastor comemora e se sente orgulhoso do feito. “Dá gosto em vê-lo. Ele merece, pois sempre foi um trabalhador. Antes, se fazia R$ 10 de serviço já tinha dívida de R$ 12 no bar. Hoje não é mais assim.”

FAZ DIFERENÇA

Almeida convive com Lima há tempos, mas sua história com moradores de rua começou antes. Aos 19 anos comprou uma Kombi e passou a distribuir alimentos para quem tinha fome. Anos mais tarde, largou emprego em multinacional para se dedicar exclusivamente a ajudar os marginalizados. Desde então, nunca mais parou. Hoje soma 31 anos de trabalho voluntário. “O que faço vai além. Não dou comida e vou embora. Converso, abraço e beijo. O abraço cura, ajuda a desestressar. É uma comunhão, é um poder comer ‘na mesa’ do outro”, diz.

O andreense se dedica diariamente a ajudar quem precisa, e sem ganhar um centavo por isso. “Toda terça-feira vou ao Pateo do Collegio, em São Paulo. Você tem de ver quanta gente fica lá”. Para poder entender melhor como ajudar Lima e tantas outras pessoas, Almeida conta que já ficou na rua, para sentir um pouco como é a vida de quem não tem lar. “Dormi na rua por três dias. Sem banho. O pessoal que vive essa realidade tem outra percepção da vida. O céu tem outro som para eles. A lua é diferente.”

Apesar de Almeida ter onde morar e Lima não, ambos dividem algo precioso: o senso de dar e receber. Compartilham também vitórias, além de histórias. Os dois choraram juntos a morte de dois companheiros. Fabio Netto das Neves, 48, e o inglês Michael Steer Renshaw, 50, que foram mortos em agosto no bairro Casa Branca, em Santo André. Manoel Almeida da Silva, 46, também morador de rua, confessou o crime e foi preso. Usou barra de ferro para se vingar. Disse à polícia que havia sido agredido em partida de dominó. “Conhecia todos. Nunca pensei que ele (Silva) teria coragem de matar. Fazer isso com alguém acordado já deve ser difícil, imagina com alguém dormindo”, diz Lima, que afirma já ter visto muita coisa ruim pelas ruas. Um outro companheiro dele e de Almeida foi morto em 2007, também em Santo André, a facadas. “A rua não é fácil”, afirma Lima.

FIEL ESCUDEIRO

Além da amizade do pastor, o sem-teto conta com outra forma de carinho e nunca anda sozinho. Está há três anos acompanhado por Moleque. O cão estava perdido, assim como Almeida. “Ele me olhou e ficou. Se tenho um pedaço de carne divido com ele”, afirma. Quando chega o fim do dia e o morador de rua toma seu banho em um depósito – “eles deixam me lavar sem pressa” – é hora de se preparar para dormir e Moleque já sabe que Lima fará sua cama também. O cão deita ao lado do amigo, que liga o rádio para relaxar a cabeça. “Ouço notícias e música internacional. Gosto de Steve Wonder, Beatles e Bonnie Tyler”, afirma, com sorriso no rosto.

O londrinense, com coração andreense, tem família por perto, mas escolhe seguir nas ruas com Moleque. “Tenho irmã e, às vezes, passo na casa dela, porém tenho medo de dar trabalho, sei que eles não confiam mais em mim. Gostaria mesmo é de ser dono de uma casa. Sinto falta também de uma companheira, mas isso não dá para manter nas ruas. Sonhos mesmo não tenho mais, só quero viver em paz.” Se depender de pessoas como Almeida, que acreditam que as dificuldades se amenizam com dedicação e amor, a paz estará sempre ao lado de Lima.




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