O contador de histórias

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Miriam Gimenes

Com uma atmosfera nostálgica, o ator Paulo Betti revira as 'gavetas' da sua memória e mostra em monólogo a beleza que a simplicidade tem.

Paulo Betti equilibra um pião na palma da mão com a mesma facilidade com que lembra, em detalhes, as vivências de sua infância. É admirável. O ator, que tem 64 anos, abre com maestria o seu baú de memórias, a maioria sedimentada em Sorocaba, sua terra natal, e às destila de maneira saborosa para o público, que comparece, semanalmente, ao Teatro Vivo, em São Paulo. É lá onde apresenta, desde meados de agosto, o monólogo Autobiografia Autorizada, espetáculo dirigido por ele e Rafael Ponzi, em que comemora as suas quatro décadas de carreira. “Mexer com a memória é um novelo interminável que se desenrola, quanto mais você cavouca, mais aparecesse”, justifica.

A ambientação é o cenário rural onde seu avô, que veio da Itália – Paulo tem até o registro do navio que chegou e mostra durante a apresentação –, passou a trabalhar como meeiro para um fazendeiro negro. “Eu via a fazenda da perspectiva da senzala”, relembra o ator, que morava com o pai, que sofria de esquizofrenia, e a mãe, uma camponesa analfabeta que trabalhava como empregada doméstica e teve nada menos que 15 rebentos. “Nos intervalos entre uma internação e outra meu pai fazia filho em minha mãe”, diz, arrancando gargalhadas da plateia. E Paulo, é claro, por ser o caçula era o mais próximo da mãe.

Era com ela – que o amamentou até os 7 anos – que ouvia rádio, sua paixão, enquanto a mãe passava roupa. E com esta simplicidade que aprendeu, diga-se, o que tem de mais precioso na vida: a valorizar as pessoas e não as coisas. “Minha mãe e meu pai me fizeram compreender mais as pessoas, estar mais perto dos mais simples. Essa história sempre me marcou muito, a consciência da luta das classes.” Como a mãe não sabia ler nem escrever, pedia para que Paulo lesse e anotasse tudo para ela, de modo que ele ganhou gosto pela prática, que não se perdeu até hoje. “Anotar é como fotografar”, conclui.

No espetáculo, Paulo interpreta ele, irmãos, o pai, os avós, a mãe. Com bom humor, poesia e dor, o ator mergulha na vida dessas personagens até então conhecidas só por ele e emerge com uma peça que reafirma a importância do ensino publico e do trabalho social para a valorização do ser humano. Tudo isso permeado por uma belíssima trilha sonora, que faz o público se teletransportar para a sua casa no Interior de São Paulo, onde viveu uma infância, enfatizada por ele, pé no chão. Ao contrário, é claro, do que é a realidade das crianças de hoje, que ficam enclausuradas por conta do medo dos pais, principalmente por causa da violência. “Conviver precocemente com o medo, estar preso, é uma infelicidade absoluta.”

O tipo de parceria que estabelece com a plateia, sagrada, em suas palavras, é muito importante não só para ele como ator, mas também para chamar atenção para a arte, tão desvalorizada neste momento no País. “Tem sido muito difícil conviver com a instabilidade e com o descaso com a cultura, nunca fomos tão ameaçados quanto agora.” Mas ele tem feito sua parte. Além do monólogo, que estará em cartaz até 1º de outubro, acaba de lançar no Festival de Gramado o longa-metragem A Fera na Selva, baseado na obra do escritor norte-americano Henry James, no qual também atua ao lado de Eliane Giardini. “É um filme sobre o amor, sobre o egoísmo, sobre aproveitar o momento presente.” Trata-se de uma adaptação para o cinema do espetáculo que ele encenou com a atriz e ex-mulher, em 1992, que lhe rendeu o Prêmio Shell de Melhor Ator. O longa deve entrar em cartaz em 2018.

 



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