Laços que vêm do coração

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Karine Manchini e Vanessa Soares

Hoje, no Brasil, mais de 46 mil moram em abrigos e esperam poder ter uma família para chamar de sua; fila anda mais rápido quando não há restrições.

Para dar à luz a um filho não é preciso gerar, é entender que neste caso o sangue é indiferente. Duvido o DNA dizer o que a gente sente. É gerar alguém na alma e não biologicamente, pois não tem biologia e nem lógica para explicar o amor de pai e mãe. Não se resume em gerar. Quem gera nem sempre cuida, mas quem ama vai cuidar. Vai cuidar independentemente da cor que a pele tem, da genética, do sangue. O amor vai além. O amor tem tanto brilho que quem adota um filho é adotado também.' O trecho retirado de um cordel do poeta e escritor Braúlio Bessa traduz em palavras certeiras aquilo que sente quem tem a chance de conhecer o filho que vai amar. E para quem ama de verdade não importa raça, cor, saúde ou história de vida. Tanto que, cada vez mais, a adoção 'fora dos padrões' – crianças mais velhas, com irmãos ou com algum problema de saúde – está ganhando espaço entre os brasileiros.

Segundo dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), atualmente, no País, cerca de 46 mil crianças vivem em abrigos e pouco mais 7.000 fazem parte do CNA (Cadastro Nacional de Adoção). Isso se deve ao fato de algumas ainda estarem ligadas judicialmente às suas famílias biológicas. Ainda de acordo com o Conselhos Nacional, menos de 5% dos pretendentes à adoção aceitam crianças com mais idade. Quanto mais velha, mais difícil é encontrar uma família que a acolha. Maria Angélica Amarante do Anjos, de São Bernardo, prova, na prática, o quanto isso é verdade. Ela adotou Jonas, 8 anos e meio. “Faço questão de falar que a adoção tardia tem suas características, assim como adotar um bebê tem outras, ou criança de 2 anos, de 7 etc. Todo processo de construção de relacionamento tem os seus processos e graus de dificuldade. E existe ainda o lado social. É uma criança a mais fora de um abrigo e dentro de uma família”, reforça.

A vontade de casar, ter filhos e formar uma família sempre foi sonho para a aposentada. Em 2004, conheceu William dos Anjos, com quem se casou em fevereiro de 2006, mas aos 48 anos ela sabia que enfrentaria dificuldades para engravidar. Mesmo assim tinha convicção de que isso não a impediria de se tornar mãe. Alguns problemas pessoais os fizeram adiar o início do processo de habilitação para adoção, que só foi concluído em 2013. Por conta do perfil escolhido – criança de 7 a 10 anos –, logo de cara já receberam porção de telefonemas de fóruns de diversas cidades da Grande São Paulo. No entanto, novos imprevistos os fizeram esperar por mais um ano.

Após ela pedir demissão e o casal dar entrada na continuidade do processo, já em 2014, tiveram a chance de conhecer duas irmãs biológicas, mas o coração lhes deu a certeza de que ainda não eram suas filhas. Quem passa pela adoção jura que sabe, simplesmente, quando é a hora. Também receberam a ligação para conhecer um menino, mas o processo conturbado os impediu até de ver uma foto da criança. Com tantos impedimentos, resolveram se abrir para as oportunidades que a vida lhes daria e aguardaram. E foi em uma tarde tranquila, enquanto Maria Angélica realizava alguns artesanatos na mesa de casa, que o telefone tocou. “Olha, nós temos aqui um menino de 8 anos e meio. Ele é pardo, tem saúde, bom aproveitamento escolar. O nome dele é Jonas e deseja muito ser adotado”. O coração dela disparou. “Aquela ligação me marcou, animou e alegrou de um jeito”, relembra Maria Angélica.

O primeiro contato com o filho só se deu um mês depois, no dia 24 de outubro. “Chegamos ao abrigo e demos de cara com essa 'coisiquica'. Ele estava brincando no pátio. Na hora do almoço sentamos à mesa que estava e começamos a conversar com as crianças, perguntar sobre a escola e, quando chegou a vez dele, respondeu: 'Estou no 2º ano, gosto de Matemática e Artes. E gosto mais ainda de Português porque amo ler'. Meu queixo caiu. Meu Deus, é meu filho!”. A afinidade ficou nítida desde o princípio. “Não tivemos nenhuma dúvida de que era nosso filho. A gente sentiu isso com uma força muito grande.”

O primeiro passeio fora do abrigo foi um almoço em família, antes mesmo de Jonas saber que era o filho que o casal procurava. “Colocaram uma camiseta bonitinha e ele aceitou nosso convite. Fez um pratinho no restaurante por quilo, sentou com a gente e falou: “Ah, tia, queria perguntar uma coisa, mas melhor não. Não sei se eu devo falar. Gostaria muito que vocês me adotassem'. E eu desabei”, conta emocionada. No dia 1º de dezembro de 2014 o termo de guarda de Jonas foi entregue ao casal. Como todo e qualquer relacionamento familiar, enfrentaram algumas dificuldades que, com amor, carinho, paciência e dedicação, foram sendo superados. O documento dando a filiação de Jonas para Maria Angélica e Anjos foi emitido no início do ano. Atualmente com 11 anos, o garoto é um aluno exemplar, vive rodeado de amigos e, mesmo com todas as dificuldades que já enfrentou na vida, tem um coração bondoso, um semblante alegre e um bom humor que contagia o ambiente onde está. “A gente é tão feliz com a família que formou. Temos tanto orgulho de ter passado por esse processo, porque a adoção é uma ilha de amor cercada de preconceitos por tudo quanto é canto. Existe uma ideia de que a adoção é uma maternidade e paternidade de segunda linha. Que o filho que veio por meio desse processo é inferior em vários aspectos. E nós somos tão felizes com a nossa história, com a nossa vida”, afirma. Além disso, a aposentada garante que se tornou um novo ser humano.

O processo pelo qual teve a chance de vivenciar foi tão inspirador que atualmente dedica seu tempo livre para ajudar (tem a página Anjos da Guarda Serviços de Apoio à Adoção, no Facebook) pessoas que desejam adotar. “Fiz questão de trabalhar com apoio aos adotantes e, para mim, é grande alegria e honra falar do assunto. Quero ajudar os pretendentes a acabar com medos, preconceitos e encarar de coração aberto a adoção. Existem crianças maravilhosas dentro dos abrigos. As pessoas não imaginam como são. Quero que um dia todas as crianças e adolescentes possam ter uma família que os acolha, os apoie e que dê carinho. Isso é tudo o que eles precisam.

História que virou livro

Após decidir adotar uma criança em 2011, a jornalista Ana Davini procurou se aprofundar em pesquisas sobre dados e processos que envolvem a adoção. Com as informações que conseguiu, escreveu o livro Te Amo Até a Lua (ADMC Editora, 2016, 128 págs. R$ 34,90), em que, além de contar sua experiência como pretendente à adoção, fala sobre algumas burocracias que a lei brasileira impõe sobre os procedimentos. “Comecei a pesquisar e vi que o fórum anunciava que pretendentes a pais só querem meninas da cor branca, mas no CNJ não é bem assim. Quem adota está aberto a conhecer crianças até 7 anos. A situação complica para as que têm a partir dos 8, mas mesmo assim ainda possuem pretendentes. A maior dificuldade mesmo é a partir dos 11 anos”, explica Ana.

Ana tentou engravidar e não conseguiu. Passou por dois tratamentos que, segundo ela, foram as piores coisas que poderia ter feito por causa dos desgastes físico, emocional e financeiro. Após conversa com o marido, decidiram adotar. Em 2011, deram entrada no processo e preencheram todos os papéis da habilitação. Após dois anos e meio na fila, o fórum finalmente os chamou para indicar uma menina de 1 ano e 1 mês. Ana se considerava cética e, mesmo com os amigos dizendo que quando ela visse a criança seria amor à primeira vista, não acreditou. A visita para conhecer a garota foi marcada e o juiz determinou que informassem a resposta logo após o encontro, pois tinham outros casais na fila.

“Nós protestamos. Achamos que seria pouco tempo para algo tão importante. Combinamos de responder no dia seguinte da visita. Quando fomos ver a menina, nos disseram que era desconfiada com estranhos. Sentamos no chão, ao lado de alguns brinquedos para acostumar. Ela deu os braços para mim e não sei explicar o que aconteceu, mas, naquele momento, soubemos que era nossa filha. Não sei, talvez por querer tanto nos sentimos assim. Ou é realmente um encontro, como se sempre fosse nossa filha e só nos reencontramos”, conta.

Hoje a filha de Ana tem 5 anos e convive muito bem com a família adotiva. Isso inclui avós, primos e tios. Após a experiência como mãe e depois de lançar um livro sobre o assunto, a jornalista acredita que existam alguns pontos que possam ser mudados para garantir a melhora no processo de adoção. As diversas chances que a Justiça dá para a família biológica acabam prolongando o processo. Existem crianças que ficam anos no abrigo esperando por conta disso. “O Brasil tem que parar com essa visão assistencialista. Toda criança tem direito a família. Outro ponto seria aumentar os funcionários da equipe técnica, porque eles reclamam que são poucas pessoas para dar conta da demanda. Poderia ter mutirão com voluntários e parcerias. Algo deve ser feito, e rápido.”

Quebrando tabus

Mariana* e Antônio* também decidiram escolher perfil bem diferente da maioria dos pretendentes à adoção e, no início do ano, se tornaram pais de três meninas, irmãs biológicas. “Nos casamos em 2011 e começamos a tentar fertilização in vitro, já desconfiava que tinha problemas. Paralelo a isso, sempre quisemos adotar, pois não ligava em ver a barriga crescer, muito pelo contrário. Também nunca fiz questão de ter um filho gerado por mim e com meus traços. Então, entramos na fila de adoção. Escolhemos crianças de qualquer sexo, entre 3 e 7 anos. Conhecemos algumas que, simplesmente, não rolava a química. Meu telefone ficou mudo por muito tempo, até que certo dia alguém ligou: 'Olha, temos a criança que você procura, mas é um grupo'. Fomos até elas e nos apaixonamos. Não que o início seja fácil. O processo de aproximação é muito complicado, mas tínhamos a certeza do que queríamos e agora está tudo ficando lindo”, contou Mariana.

O caminho da adoção

As partes técnica e jurídica da adoção parecem burocráticas em alguns pontos, mas, segundo o advogado Hélio Ferraz de Oliveira, da Ferraz Advogados, tudo pode ser mais simples do que realmente é. “Hoje encontramos duas grandes barreiras. A primeira é a ausência de aparelhamento do Estado. Não é raro ver comarcas (pontos especializados onde os processos são feitos) sem técnicos ou com profissionais insuficientes para atender à demanda de processos. A segunda é a desinformação. As pessoas construíram a imagem de que o processo adotivo é difícil e intangível, o que não é verdade”, explica Ferraz.

O interessado em adotar deve procurar um fórum na cidade em que reside. No local, começará o processo de habilitação de pretendentes e receberá lista dos documentos necessários para que possa iniciar entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. A habilitação tem tempo de sete meses a um ano para ser concluída. Após o término deste processo, o pretendente passa a participar do CNA e, assim, pode encontrar o perfil da criança que procura. Outro ponto a ser destacado, que talvez muita gente não saiba, é que qualquer pessoa pode adotar, desde que se encaixe no procedimento da habilitação. “É preciso ser maior de 18 anos – ter 16 anos a mais do que o adotado, no mínimo – e apresentar estabilidades econômica e emocional, que serão avaliadas pelos técnicos. Quando falamos em estabilidade econômica não falamos de riqueza, mas sim de equilíbrio financeiro”, explica.

Segundo o especialista, outro grande problema é a procura pelo perfil 'padrão' (bebês, sem irmãos e nenhum problema de saúde). “É possível que demore mais de seis anos para ser localizada uma criança assim. As adoções tardia e de grupos de irmãos continuam sendo deixadas de lado, por causa dos preconceitos concebidos que impedem o avanço de procura para esses perfiis”, diz. O advogado explica ainda que, além do período de habilitação e da fila de espera pelo perfil procurado, existe o estágio de convivência. É obrigatório a partir dos 2 anos e tem duração mínima de três meses. Este período, de acordo com o especialista, costuma ser o de maior ansiedade, porém o mais essencial, pois aproxima e fortalece os laços afetivos entre a nova família.

União que faz a força

Adotar é um gesto de amor e decidir ser pai e mãe de uma criança acaba exigindo preparações emocionais. Pensando nisso, no conforto das crianças e na resolução de questões pouco faladas sobre a adoção, os grupos de apoio à adoção surgiram com o intuito de auxiliar pretendentes antes, durante e após o processo. Há 16 anos trabalhando com esse perfil familiar, o Grupo de Apoio à Adoção Laços de Ternura, que participa do Movimento Nacional da Adoção e faz parte da Feasa (Federação das Entidades Assistenciais de Santo André), vem fazendo com que famílias da cidade possam se preparar para a decisão de acolher uma criança.

O grupo, que promove encontros no último sábado de cada mês, chega a reunir mais de 100 pessoas, entre elas, casais, mães solteiras, tios, madrinhas, entre outros. Os temas, sugeridos pelos próprios participantes, são diferentes em cada encontro. “Nós sabíamos que muitos Estados brasileiros tinham esse apoio à adoção. O grupo de São Bernardo, por exemplo, foi criado dois anos antes do nosso. É um trabalho importante no sentido de orientar as famílias. Os encontros são feitos por um trio técnico, com assistente social, psicóloga e advogada”, explica Maria Inês Villalva, diretora da Feasa.

A assistente conta que alguns anos atrás a preferência maior era por crianças brancas, novinhas e do sexo feminino pela visão equivocada de que meninas são mais comportadas, carinhosas e dóceis. “Levamos vários depoimentos para as reuniões, como o de uma mãe que adotou uma menina com síndrome de Down, para que as pessoas vejam que o amor se constrói no dia a dia. O brasileiro sempre foi muito resistente na questão, sempre procurou, principalmente nos casos de esterilidade, que a adoção imitasse a biologia. Hoje em dia percebemos que na questão racial nós tivemos muitos progressos. Existem muitos pretendentes que na hora do cadastro colocam a raça como indiferente. Tem até alguns que fazem questão, que preferem que a criança seja, apenas, da raça humana.”

Maria Inês ressalta, porém, que o grupo não tem a pretensão de tentar mudar as decisões dos pretendentes para que adotem crianças mais velhas, negras, com irmãos ou com problemas de saúde. As escolhas cabem somente aos futuros pais. A real intenção é ajudar na resolução de dúvidas e oferecer apoio. “A gente repete que se o sonho do pretendente for embalar um bebê, que ele persista, porque se adotar uma criança maior vai se frustrar. Não existe adotar os mais velhos como prêmio de consolação. As famílias devem estar muito preparadas e seguras dos seus desejos e possibilidades”, orienta.

A lei não obriga que para adotar uma criança a família tenha que participar do apoio, mas em Santo André, por exemplo, quando as pessoas iniciam o processo, os técnicos orientam que seja feita a passagem pelas reuniões. “O grupo começou atendendo independentemente do domicílio. Vinha gente de Mauá, Diadema e São Paulo. Mas a partir de determinado momento, em que percebemos que como a demanda estava crescendo estávamos perdendo qualidade, as pessoas saiam com dúvidas e não perguntavam, reduzimos. A partir de 2014 só fazemos atendimento para quem é de Santo André. Isso foi muito positivo, porque Mauá criou o grupo deles e existe o de São Bernardo também. Em Diadema nunca teve e em São Caetano foi encerrado.”

Além da rede nacional, estrangeiros também podem adotar crianças brasileiras. Segundo Maria Inês, a Itália é o país campeão nesse quesito, seguido por França, Suécia e Espanha. Mas para ela, essa situação não é a ideal “Antigamente, crianças negras, com irmãos e mais velhas iam para adoção internacional, o brasileiro não aceitava. Os estrangeiros não eram tão exigentes. Sou a favor da adoção, independentemente de aqui ou não, mas acho que a criança paga um preço quando ela precisa abrir mão da sua cidadania. Hoje, graças a Deus, o número de crianças que vão para esse tipo de adoção é muito pequeno. Isso para mim é vitória, é uma mudança no olhar e no entendimento do assunto”, finaliza. 

 



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