É que a viola fala alto no seu peito humano

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Miriam Gimenes

 Ele escuta cerca de 200 músicas por semana para selecionar os cantores que levará em seu programa, o Sr. Brasil, no ar na TV Cultura desde 2005 – sempre aos domingos, às 10h. Mas se tiver de escolher a trilha sonora para sua história, Rolando Boldrin não tem dúvida: Vide Vida Marvada, de sua autoria, a mesma cujos versos denotam que quem fala alto no seu peito humano é a viola. “É o tema do programa e conta toda a minha vida.”

A sugestão, portanto, é colocá-la para tocar – em som ambiente, é claro – quando for ler o recém-lançado livro A História de Rolando Boldrin – Sr. Brasil (Contexto, 224 páginas, R$ 45), escrito por Willian Corrêa e Ricardo Taira, ambos jornalistas da TV Cultura.

A obra fala sobre suas oito décadas de vida e 58 anos de carreira, desde o início de uma história simples em São Joaquim da Barra, cidade onde nasceu, passando pela sua vinda para São Paulo, aos 16 anos, seguindo pelos trabalhos em rádio, cinema e televisão, veículos que o fizeram um dos maiores divulgadores da música popular brasileira. “Havia pensado em contar minha história, mas em primeira pessoa. Daí surgiu esse convite do William e do Ricardo e achei interessante, ficou muito bom. Me emocionei diversas vezes lendo o livro”, conta. Ele, um exímio contador de ‘causos’, viu, portanto, o papel se inverter.

Mas se sentiu confortável em contribuir com a obra, já que uma das coisas que faz de melhor é relatar situações do cotidiano. E justifica isso com o talento que reconheceu ainda criança. “Desde garoto presto muita atenção, gosto de reproduzir as histórias pitorescas que acho engraçadas. Acho o brasileiro um povo muito engraçado. Tem um jeito de levar a vida diferente de outras nações, é um tipo muito especial.”

Se diz privilegiado em ser um artista que faz o público se divertir. “Rir é o melhor remédio. Levo a vida achando graça.” E lembra a importância que o pai, Sr. Amadeu, teve em toda trajetória para chegar até aqui fazendo o que gosta. “Ele achava que eu tinha de aprender um ofício, então sou sapateiro. Mas tinha a filosofia de que pobre para vencer na vida tem dois caminhos sem ser culto: ou jogador ou artista. Como não jogava percebeu que tinha talento para ser artista e achou que devia seguir isso.” Tanto que em suas primeiras apresentações, Boldrin tinha 11 anos. Fazia dupla com o irmão Leili (eram Boy e Formiga, respectivamente).

De lá para cá foram quase 40 novelas, inúmeras peças teatrais, três programas de televisão e três filmes no cinema. O primeiro deles, gravado em Paranapiacaba, em Santo André, e lançado em 1978: Doramundo.

E é claro, durante esse período muita coisa mudou, principalmente no mercado musical, o que, para ele, não é benéfico para o legado cultural brasileiro. “Não vejo com bons olhos o tratamento que a mídia dá para a nossa cultura popular, pouquíssimos programas são ligados a isso. É muita cultura importada, muito rock, sertanejo de mau gosto. Se você olhar em revistas especializadas de marketing vai encontrar 300 duplas sertanejas ruins, descaracterizadas de música brasileira. Eu faço a minha parte, como a fábula da formiga que tentava com um baldinho apagar um incêndio”. Entre os inúmeros artistas que lançou em seu programa, ele cita com orgulho Almir Sater. Qual seu sonho? “É ver o País limpo desses corruptos que tem aí, desses políticos. Sou positivista e acredito no Brasil, apesar de tudo.” Como um brasileiro nato, o Sr. Brasil, realmente, não desiste nunca.

Tem café de pau aí?’, dizia Boldrin após as filmagens de ‘Doramundo’
Todos os dias, Dona Cida, como era conhecida na Vila de Paranapiacaba, já ficava preparada para visita ilustre: Rolando Boldrin. É que, durante as filmagens de Doramundo (1978), longa dirigido por João Batista de Andrade, ela sempre era abordada por ele, que perguntava: ‘Tem café de pau aí?’

Dona Cida partiu em 2003, mas guardava carinho especial pelo ator, que fazia um maquinista na trama, o Pereira. “Ele dizia ‘café de pau’ porque ela fazia no fogão a lenha. Mamãe sempre falava dele (Boldrin)”, lembra Zelia Maria Paralego, 65 anos, dona da Hospedaria Os Memorialistas e do restaurante Cavern Club, ambos na Vila.

Boldrin, que não voltou mais a Paranapiacaba, diz que foi por conta daquele personagem que Selton Mello o chamou para viver Giuseppe, também maquinista, no filme que dirige e que estreou semana passada, O Filme da Minha Vida. “Ele disse que tinha gostado de me ver no telão e criou um papel para mim. Me apaixonei pela história. Só faço coisas em que acredito.”




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