Amor que vai além

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Karine Manchini

Após ver a mãe sofrer um AVC, pedagoga transformou a dor em aprendizado e lançou livro para explicar rotina

Só quem tem ou já teve algum conhecido que passou por problemas sérios de saúde, entende a dificuldade de adaptação e o período de intensa preocupação. A psicóloga e pedagoga Ângela Maria Cibiac Fernandes viveu isso e decidiu relatar tudo que aconteceu com sua mãe Maria do Carmo, que sofreu um AVC hemorrágico (Acidente Vascular Cerebral) em 2006, aos 80 anos. Maria do Carmo nasceu em Minas Gerais, em 1927, e desde sempre teve a costura como fonte de alimento. Na época do AVC, era uma pessoa totalmente ativa e independente, ainda costurava e gostava do que fazia. Mas a vida reservou surpresas não tão agradáveis para ela. O Acidente Vascular Cerebral lhe deixou com sequelas graves e sob cuidado das pessoas mais próximas.

Carminha, como é conhecida, morava sozinha e levava sua vida tranquilamente sem precisar de ajuda ou auxílio de ninguém. Desenhava, escrevia, pintava, dirigia e fazia outras tantas atividades em sua própria companhia. As coisas mudaram para sempre em 23 de setembro de 2006, quando a doença chegou sem aviso prévio e marcou dois tempos diferentes: antes e após o AVC. Além das sequelas permanentes, Maria do Carmo e sua família precisaram se adaptar.

Aproveitando do seu conhecimento sobre a doença e pesquisando mais conteúdos em livros e estudos feitos com médicos neurologistas, Ângela queria entender o que aconteceu com sua mãe e decidiu escrever sobre o que passou. Resolveu se aprofundar no assunto sobre pessoas que tiveram sequelas depois da chegada da doença. Conseguiu reunir material significativo, incluindo vários desenhos e escritas que Maria do Carmo fazia enquanto estava em processo de recuperação. Isso instigou sua inspiração e serviu para impulsionar o material de trabalho para escrever um livro sobre o assunto. Depois de juntar registros por sete anos, a psicóloga decidiu lançar o livro A Vida Em Dois Tempos – Acidente Vascular Cerebral (All Print Editora, 168 págs. R$ 40).

Logo no primeiro capítulo é possível observar que a autora tem como objetivo tocar as pessoas com a história da sua mãe e ainda explicar os diversos tipos de derrames e suas características. Como é direcionado para um público amplo, usou linguagem mais simples. “A intenção foi mostrar tanto para as pessoas que entendem quanto para os leigos as extensões da sequela e até mesmo para estudantes da área da saúde. A parte em que coloquei os retratos da minha mãe foi para fazer uma análise comparativa, na qual mostro como ela era e como ficou. Revelar todo o ambiente familiar e como isso tem peso no tratamento do paciente também foi essencial para a obra”, explica a autora.

Além de superar as expectativas informadas pela medicina, Maria do Carmo conseguiu evoluir positivamente de um estado crítico. Isto porque sua filha decidiu tratar a mãe de uma forma diferente que muitas pessoas na mesma condição de saúde são tratadas. “Ela teve algumas melhoras. Antes escrevia só de um lado e depois foi se adaptando. Hoje pega xícara, copo e outros objetos sem ajuda, mas quando está se sentindo triste, se nega a fazer as coisas sozinha. No fundo, sei que ela tem consciência do que aconteceu. Tem dias em que se fecha e permite que eu dê alimento na boca, mas quando está melhor, toma a frente das coisas”, conta.

Ângela aponta na obra vários pontos técnicos para explicar sobre a doença, mas procura explorar, principalmente, seus sentimentos para que o leitor possa entender os processos e retrocessos do tratamento. Além disso, traz ao público preparação psicológica em aceitar a nova condição que a família do paciente terá após o AVC. “Foi tudo muito complicado pelo grau de atividade e independência dela. Acostumar com minha "nova mãe" não foi fácil, tive sentimentos de tristeza e complexidade, por ver a situação se complicando cada dia mais. Mas nos acostumamos e nos adaptamos. Hoje, mesmo após dez anos e pelo tipo de doença grava que teve, ela está com a gente. Sou muito grata por isso”, finaliza. Em março, Dona Carminha completou 90 anos.




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