Paternagem

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Miriam Gimenes

Sou de uma geração que o normal era o pai ser o provedor da casa e às mães cabia os cuidados e responsabilidade quase que total da educação dos filhos, ainda que também trabalhassem. Aquele que fugia da regra e gostava de participar do dia a dia dos pequenos era visto, por quase todos, como uma exceção.

Nos últimos anos – pelo menos há quatro, que é o período que acompanho este universo ­– parece que este cenário tem mudado enfim. Os pais não só estão mais participativos no tratamento com as crianças como alguns até se arriscam a escrever sobre a experiência. É o caso do analista de sistemas Gabriel Santos, 32 anos, de Campinas. Pai de Davi, 3, decidiu postar no Instagram, de forma bem-humorada, a sua rotina como pai de primeira viagem e o fez desde a gravidez de sua mulher, Vanessa. Hoje já acumula cerca de 32 mil seguidores na conta @ papaibanana. “Como minha mulher é comissária de voo, passei a ficar sozinho com um bebê cinco dias por semana. Bateu um desespero. Nunca tive experiência com criança, sou filho único. Resolvi então tirar fotos divertidas, e captar esses momentos acabou sendo uma válvula de escape para mim”, explica. Com o tempo, ele também sentiu necessidade de escrever sobre a experiência e criou o blog (www.papaisbananas.com.br) e, em seguida, canal no YouTube.

O que ele quer mostrar com seus registros e textos é que ser pai ou mãe não é tão fácil, mas dá para trocar experiências e tornar tudo mais leve. Com o auxílio, é claro, do humor. “Nem o pai nem a mãe estão preparados para tudo o que está por vir. A gente vai lá faz um cursinho no hospital, mas a verdade é que quando você tira o bebê da maternidade não tem a menor noção do que vai fazer”, lembra. Nestas situações diz que o melhor é seguir a intuição e o coração.

Santos, que lembra que o pai sequer trocou uma fralda sua quando bebê, é defensor de um movimento chamado paternidade ativa, embora ele não concorde com o nome. “O que tento passar nos textos que escrevo é que fazer essa paternidade assistida é coisa do passado. Ela tem de ser vivida, não tem de ser assistida. Se ela não é ativa, não é paternidade. Você tem de ser protagonista, não coadjuvante.” E ele está otimista. “Antes, 88% dos meus seguidores eram mães. Este número caiu para 80% e subiu o de homens. Já vemos, portanto, alguma mudança.”

Este tipo de consciência é de enorme importância. A participação paterna na vida de uma criança vai além da criação de laços afetivos. Segundo relatório State of the World's Fathers (em tradução, O Estado dos Pais do Mundo), publicado por ativistas da MenCare, a interação efetiva entre pais e filhos ­­– a chamada paternagem – desenvolve também a empatia e habilidades sociais dos pequenos, inclusive quando adultos. Como eu disse neste mesmo espaço para as mães, o papo-reto agora é com eles: pais, sejam! Ser exceção é muito pouco quando o que está em jogo é a educação de um filho.




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