Desafios no roteiro

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Vinícius Castelli

 Embarcar rumo a um destino ainda desconhecido, sem um rosto ‘amigo’ por perto ou sem a tranquilidade de um pacote de viagem contratado, em que alguém estará no aeroporto com plaquinha com seu nome, pode parecer em um primeiro momento algo aterrorizante. Mas, para muitos, após planejarem suas próprias ‘aventuras’ e superarem desafios, é uma paixão que nasce e, até mesmo, uma forma de descobrir algo mais sobre si mesmo.

O andreense analista de comunicação corporativa Raphael Andrade, 23 anos, foi um desses casos. Em 2015, pegou a mochila e partiu para a Europa, sozinho, sem pacote, por conta própria. “Pesquisei os voos e hostels. E reservei tudo assim”, afirma. Visitou França, Inglaterra e Escócia.

Por não conhecer ninguém por onde passou e não falar muito bem todos os idiomas dos locais visitados, ficou apreensivo. “Você sempre pensa o pior. Eu imaginava que se fosse assaltado ou tivesse algum problema de saúde não teria ninguém a quem pudesse recorrer”, diz. “Andava com o passaporte e dinheiro o tempo todo, porque pensava que se perdesse ou roubassem meu documento não conseguiria voltar ao Brasil.”

Hoje, ele confessa ser menos paranoico, mas se puder escolher, prefere viajar acompanhado. Segundo ele, na maior parte dos destinos é muito melhor viajar por conta, tanto pelos preços baixos quanto pela maior liberdade para montar os roteiros. Fato é que, depois da experiência, ele mudou, assim como acontece com quem viaja de ‘corpo e alma’. Ele garante que hoje consegue entender melhor quem é como pessoa, conhece seus limites e aprendeu a contar mais consigo mesmo. Seu próximo destino é o Rio de Janeiro, em outubro, sozinho até agora.

Segundo o psicólogo de São Bernardo André Correia, geralmente as pessoas adquirem grandes aprendizados em situações como essa. “É possível descobrir muito mais sobre si e sobre o mundo ao redor. Mas isso não significa que a experiência pode ser agradável a todos. Muitas pessoas não gostam de correr riscos e isso também é comum”, explica.

O publicitário Carlos Sanches, 37, quer embarcar, de ônibus, para o Mato Grosso, e depois para Bolívia, para desbravar o Salar do Uyuni – deserto de sal. “Um amigo convidou e as primeiras perguntas que fiz foram: ‘Que avião eu pego? Para onde eu vou?’”, conta. Ele está apreensivo, pois será uma aventura. O que o deixa receoso, além de ir a um local que não conhece ninguém e por própria conta, é o fato de ter alergias, até de leite, por exemplo. Mas mesmo assim há coragem. “Se eu comprar algo pronto (pacote) parece que vou ver a viagem que alguém quer me contar. Se for por minha conta tenho a experiência real”, diz.

Em 2016 a jornalista Liora Mindrsz, 31, pegou a filha de 1 ano e meio e embarcou para a Alemanha. Planejou a viagem sozinha e foi. Ela conta que os medos que apareceram foram diversos: da filha não comer, de a pequena ficar doente. “Como eu daria conta? Medo, né, de ir com a criança tão longe. Tinha amigos lá, mas não a família.” Segundo ela, o que deu coragem em viajar com a filha sozinha foi a vontade de que elas vivenciassem isso. “Acredito que se colocamos as crianças para viver situações adversas, ver outros lugares, elas saem da zona de conforto, vão se acostumando e tomando gosto por viajar.”

Denis Ricardo Lopes, 40, e Ariane Escudeiro Lopes ,41 anos, de Santo André, viajam por contra própria há cinco anos. “Sempre fui na ‘raça’. Faço pesquisas na internet, uso guias, mas nunca viajei por pacote. Acho que a viagem fica mais enriquecida dessa forma, além dos imprevistos, que rendem boas histórias”, garante. A primeira ida ao Exterior foi para os Estados Unidos, em 2012. “Nunca tinha saído do País”, diz. Fez tudo sozinho. Em seguida visitaram Chile, Espanha, França, Inglaterra, Canadá e Itália.

Lopes jamais trocaria uma viagem elaborada por ele e a mulher por pacote. “Não gosto de me sentir preso a roteiros preestabelecidos. Prefiro me aventurar e deixar a viagem acontecer. Fora que os custos são absurdamente menores”. Depois de experimentar viajar, ele se interessou mais por história, arte, gastronomia e, principalmente, percebeu que, “apesar de culturas tão distintas, no fundo todos lutam pelos mesmos direitos, e que barreiras fronteiriças não deveriam existir. Você percebe que o mundo é muito menor do que parece.”

DICAS
Zizo Asnis, veterano desbravador do mundo e editor dos guias O Viajante, dá dez dicas importantes para passageiros de primeira viagem e também aos mais experientes. Aproveite!

> Comece a planejar logo a sua viagem. Não importa que você não saiba ainda quando vai embarcar, o importante é saber que você vai viajar, mesmo que seja daqui a um, três, cinco ou dez anos. 
 
> Guarde dinheiro priorizando uma espécie de ’poupança viagem’. Pense em uma balada que está deixando de ir ou em uma roupa que está deixando de comprar, e reserve essa grana especificamente para isso.

> Invista em guias de viagem (ok, sou suspeito para falar, mas realmente acredito nesses livros). Os guias ajudam muito no planejamento – e posteriormente durante o passeio –, fornecem dicas imprescindíveis e geralmente confiáveis que proporcionam que você aproveite mais e evite roubadas. Mesmo que muita coisa seja encontrada na internet, os guias costumam apresentar as informações de forma mais precisa e organizada. 
 
> Acompanhe sites que divulgam promoções de passagens aéreas, comparam preços de tarifas e, mediante um cadastro seu, avisam quando houver alteração no valor (que muitas vezes pode ser para baixo). Entre esses sites, destaco Melhores Destinos e Skyscanner.
 
> Evite viajar na temporada alta (geralmente verão e o período de férias escolares no país), quando preços estão mais altos e hotéis, albergues, restaurantes e museus lotados. Em contrapartida, na temporada baixa e média, tudo é mais tranquilo, evita filas e pode viajar com mais flexibilidade, eventualmente reservando na hora, no local (o que não é nada aconselhável na temporada alta). E de quebra, se for primavera e outono, vai encontrar temperaturas mais amenas do que no verão. 
 
> Está sem muita grana, considere hospedar-se em um albergue, também conhecidos como hostels. Os quartos mais baratos são os dormitórios compartilhados com várias pessoas, que normalmente dormem em beliches, mas se desejar, muitos hostels oferecem quartos com menos gente e até privativos, tanto para solteiros ou casais. E não importa a sua idade: do jovem mochileiro à vovó aposentada, todos são bem-vindos em um albergue – o importante é não ter vergonha de socializar com outros viajantes. E ainda pode usufruir, geralmente, de uma cozinha comunitária, onde você faz sua própria comida, caso queira economizar ainda mais. Hostels também são ótimos para quem vai sozinho e busca companhia.

> Se estiver muito sem grana, ou quiser uma experiência com cidadãos do país, cadastre-se no site do couchsurfing, pelo qual você pode se hospedar de graça na casa de nativos.   

> Procure sempre falar inglês – o idioma internacional dos viajantes – mesmo que você saiba muito pouco da língua de Shakespeare. O importante é interagir com nativos e turistas. Esse contato com outras pessoas é essencial para aproveitar melhor a experiência e a cultura do lugar. O ideal, se possível, é já começar a aprender ou aperfeiçoar o inglês antes de partir. 
 
> Aprenda também palavras básicas do idioma local, como ‘bom dia’, ‘por favor’ e ‘obrigado’ – e não importa que seja grego, russo ou tailandês. Mostrar educação e disposição para interagir na língua do país, mesmo que você saiba apenas três ou quatro expressões, ajuda muito no contato com os nativos, que ficarão felizes ao ver o seu esforço para se comunicar. 
 
> Existem muitas atrações gratuitas nas cidades, inclusive museus com dias ou horários onde não há cobrança de ingresso. Procure saber mais sobre isso (guias de viagem costumam ter essa informação). Também rolam muitos free walking tours, onde você faz passeios guiados a pé pela cidade (andar é o melhor meio de conhecer um lugar), e o pagamento é uma contribuição espontânea. Nessas caminhadas você também conhece outras pessoas, o que pode ser ótimo para quem viaja sozinho e quer companhia.




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