O mundo espera por você

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Vinícius Castelli

Se para alguns viajar é apenas uma forma de descansar, para outros é um projeto de vida. E mais, uma forma de se desafiar, se libertar, de aprender com o mundo e vencer dificuldades. Esse é o caso de Zizo Asnis. Nascido em Porto Alegre, o publicitário de 49 anos desbrava o planeta há cerca de três décadas e fez disso forma de ganhar a vida. O melhor de tudo, com muito prazer e esmero. Hoje, ele conta todas as suas experiências ao longo de 11 guias lançados pela sua editora, O Viajante, com dicas preciosas, feitas por brasileiros para brasileiros sempre incentivando as pessoas a viajarem.

O ano era 1989 quando tudo começou. Asnis trancou a faculdade e foi viver. Ficou 12 meses fora. “Foi espetacular, uma transição”, recorda. Embarcou para a Europa, para Londres, e naquele período a informação era pouca. Guia de viagem? No Brasil? Era luxo.Blog? Site especializado? Nem pensar. Não havia internet, devemos nos lembrar.

Arrumou um trabalho por lá. Foi lavar prato. “Juntei grana só para viajar”, diz. No mesmo ano caiu o muro de Berlim, na Alemanha. Ele estava na Romênia no mesmo ano durante os protestos que culminaram na queda do ditador Nicolae Ceausescu. “O Leste Europeu se abria para o mundo. A gente não tinha ideia do que era o comunismo, um país fechado”, explica. A curiosidade e a vontade de mais borbulhavam em Asnis.

Ele conta que estar na Europa quando houve a queda do muro de Berlim foi muito forte para ele. “Tive esse sentimento, essa vontade de compartilhar minha experiência, informação”, explica.

Fato é que ele voltou ao Brasil, arrumou um bom trabalho e terminou a faculdade. Mas depois de um tempo a estrada o chamou de volta. “Pedi demissão e voltei à Europa em 1994. Fiquei mais dois anos fora”. De Londres resolveu desbravar a Ásia. Tailândia, Índia, Nepal. Passou por todos. Sem luxo, tampouco muito dinheiro. E para essas aventuras usou guias de viagens, algo que existia no Exterior. “Comecei a comparar o que um livro tinha que o outro não. “Fiz um estudo disso com as informações que eles proporcionavam. Não tinha no Brasil ainda”, explica.

Em 1996, voltou para casa, e a ideia de produzir um guia era forte em sua cabeça. Passou um ano montando o projeto. Em 1999 voltou à Europa para atualizar suas informações e, depois, começou a formatar o guia. “Já estava há dois anos sem remuneração”, lembra.

Ganhava vida, há 15 anos, enfim, de forma quase que independente – já que Asnis teve de abrir uma editora para seguir com seu sonho –, o livro O Guia Criativo Para O Viajante Independente na Europa. Com mais de 500 páginas, é ilustrado por dicas que vão na contramão do que oferecem as revistas especializadas e guias traduzidos. Ele mostra que qualquer um pode, por conta própria, montar sua viagem, se desafiar, aprender com tudo isso. Bastam vontade, planejamento e uma mochila.

Para Asnis, não importa idade ou sexo. Dá para viajar, por conta, vencendo desafios, medos, se jogando no mundo. Basta querer. Hoje, a obra de estreia está na décima edição. “É importante incentivar as pessoas a viajarem. As coisas dão certo. É uma grande experiência. Viajar é viver intensamente.”

Asnis coleciona histórias diversas. Já passou por cerca de 85 países. Talvez mais. “Austrália e Nova Zelândia não conheço”, avisa. Está guardando essa viagem para um futuro próximo. De tudo o que já viu, ele fala de novo na Romênia, quando questionado sobre qual lugar o transformou de alguma forma. “Trabalhei com um cozinheiro em Londres. Ele desapareceu na Romênia. Era envolvido com direitos humanos”, explica.

Ele teve o visto negado recentemente para a Coreia do Norte. “Descobriram que eu ia fazer um guia e proibiram”, diz. Ele teve outra oportunidade de ir depois. Mas as viagens no país devem ser feitas com acompanhamento de um guia local. “Se eu fosse e usasse as informações para um livro a pessoa que me acompanharia poderia ser presa depois. Decidi não ir”, conta.

Na Índia, em 1994, ele também se lembra da miséria e da sujeira que viu pelas ruas. “Foi uma viagem pesada”, diz. “Tem de estar no espírito de aventura.”

Em 2005 passou perrengue. Asnis estava saindo da Rússia pelo extremo Noroeste do país, indo para a Finlândia. Estava tendo conflito na Chechênia e o passaporte do brasileiro havia sido emitido em Londres, com algumas pequenas diferenças gráficas do feito no Brasil. “Ficaram desconfiados. Fim de ano, frio, um brasileiro ali?”, relembra. Ele foi jogado em uma cela. “Acharam que meu passaporte era falso e que eu poderia ser um terrorista”, explica. Não pôde, sequer, fazer uma ligação. “Foi desesperador”, afirma. No dia seguinte, com ajuda de um tradutor, foi libertado sem grandes explicações. “Aí sim consegui falar com a Embaixada brasileira.

Mas entre as dificuldades, há também o bônus. Ele garante que, entre suas andanças planeta afora, o que há de melhor e de comum no mundo é o lado bom das pessoas. ”É minoria, mas há”, diz. “Tem gente que explica, ajuda, mostra algo, fala da sua cultura, e tudo de bom coração.”


Trabalho de uma vida em 11 guias de viagem
Depois do sucesso do livro de estreia, O Guia Criativo Para O Viajante Independente na Europa, que ganhou recentemente edição comemorativa em box especial (R$ 199, em média) – quem quiser tem de correr, pois já está ficando fora de catálogo –, o editor Zizo Asnis preparou diversos outros títulos ao longo dos anos. Entre eles está O Guia Criativo Para O Viajante Independente na América do Sul (R$ 79, em média) – em sua sétima edição –, que, junto do primeiro, vendeu 300 mil cópias. Para dar conta de tudo, reuniu colaboradores, dividiu o que cada um teria de cobrir e desbravaram os territórios.

“Por sete ou oito anos eu fui uma editora que vendeu dois títulos”, confessa ele. Agora, são vários, 11 no total. Recentemente foi convidado pelo Ministério do Turismo do Uruguai para viajar pelo país e colocar tudo em um novo livro: Guia O Viajante Uruguai, também pela sua editora. “Esse foi meu top. O único propósito foi escrever dicas para brasileiros. Me apaixonei pelo Uruguai. Fui nos tempos em que o José) Mujica era o presidente. O guia já está em sua terceira edição”, explica.

Argentina, Rio Grande do Sul, Londres, Santa Catarina, Chile. Todos esses locais foram contemplados com guias da editora O Viajante. E em todos eles é possível achar ricas dicas, como a melhor forma de chegar e sair de cada país, locais imperdíveis para comer, o que ver – não só da Torre Eiffel é feita Paris – , contextos políticos e históricos. Tudo o que Asnis viu e viveu de perto ao longo dos anos está estampado nas páginas. Ele dá até toques de como planejar uma viagem.

No mês que vem Asnis aplicará o curso Travel Writer, que ministra há nove anos. Por meio de aulas práticas e teóricas, apresenta ao público a atividade do ‘escritor de viagens’, que conjuga a arte da escrita à arte do viajar. Desta vez será de 18 a 22 de setembro, em São Paulo, na Casa da Educação (Rua Paulistânia, 551). O valor é R$ 1.120. Há desconto para quem se antecipar (www.oviajante.uol.com.br/curso-travel-writer). 




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