'Quero ser lembrada como quem fez alguma coisa'

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Miriam Gimenes

Carla Morando, primeira-dama de São Bernardo, reativou o Fundo Social e quer fazê-lo funcionar com recursos próprios

A criação do título de primeira-dama é atribuído ao ex-presidente dos Estados Unidos Zachary Taylor (1784-1850). À época em que estava na Casa Branca, em 1849, em homenagem a Dolley Madison, casada com o também ex-presidente James Madison, o norte-americano fez um discurso durante o seu funeral e a chamou de first lady (primeira-dama, em português). O título pegou. Daí para frente, milhares de mulheres ocuparam o 'cargo' no mundo – algumas que apenas eram lembradas da função quando acompanhavam os maridos em cerimônias públicas e outras, no entanto, que usaram da oportunidade para fazer a diferença.

Carla Sardano Morando, casada há uma década com o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), quer fazer parte do segundo time. “Não pretendo simplesmente estar ao lado do meu marido nos eventos. Não vou ser um vaso ali. Quero ser lembrada como alguém que fez alguma coisa à frente do Fundo Social de Solidariedade”, garante. Para tanto, assim que o prefeito assumiu, reativou o fundo, que estava inativo havia oito anos. E daí surgiram os desafios.

Como é de domínio público, assim que Morando assumiu o Paço, em janeiro, tomou pé da situação financeira do município que, segundo ele, tinha uma dívida de cerca de R$ 200 milhões. Para amenizar o montante, tratou de iniciar série de ações,­ como cortar carro oficial, telefone corporativo, rever valores de contrato, renegociar dívidas, entre outras coisas. Por isso, dinheiro para o fundo­ que, inclusive, não havia sido previsto no Orçamento aprovado ano passado, nem pensar. “Não posso pedir dinheiro para ele enquanto não liquida a conta. Já conseguiu pagar metade, mas ainda falta um valor alto, R$ 100 milhões. Não posso tirar, senão ele tem de parar outras coisas fundamentais. Por isso, estou me movimentando para fazer funcionar o Fundo Social e conseguir um caixa”, garante a primeira-dama.

Entre os projetos que implementou assim que assumiu está o da campanha do agasalho. A meta, segundo ela, é arrecadar 50 mil peças, mas até agora conseguiu pouco mais de 20 mil. Uma vez em poder do fundo, as roupas têm sido distribuídas para as entidades cadastradas na Sedesc (Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania). “Fora essa (ação), estamos fazendo coisas paliativas, até por conta de não ter recurso nenhum. Para isso estou usando bastante as secretarias, para pedir alimento ou agasalho.” Mas ela quer mais.

Mês passado tratou de fazer chá beneficente na pinacoteca de São Bernardo. Com convites ao valor de R$ 120, uniu o útil ao agradável: divulgou um espaço de cultura da cidade e arrecadou o primeiro montante para fazer girar dinheiro para o setor pelo qual é responsável. “Quando fomos vender o convite, 90% das pessoas nem sabiam que São Bernardo tem Pinacoteca. Tem e é linda. Estava judiada, mas fizemos (uma ação da) Lei da Parede Limpa e, em um sábado, 60 pessoas ajudaram a pintar o prédio. Foi essencial para receber as convidadas.” Participaram do evento 120 empresárias do município, que não só compraram o convite como doaram tudo o que foi necessário para realização do chá. É uma luz no fim do túnel, como Carla fez questão de frisar.

Ela ainda tem planos de implementar mais projetos. Um em especial, voltado para idosos e crianças,­ mas não sabe, no entanto, se conseguirá viabilizá-los. “Tenho muitas coisas na cabeça, mas não tenho certeza se posso fazer ou não. De repente, em outro país dá, mas aqui não sei, porque é tudo muito burocrático”, reclama. Por isso, prefere não divulgar nada ainda para não criar expectativas. Carla também está buscando parcerias com empresas e recursos do governo federal. Questionada se já pensou na possibilidade de, um dia, se tornar a primeira-dama do Estado, Carla responde tranquilamente. “Se for uma coisa que tiver de ser, vou. Não sou uma mulher que volta para trás. Se o trem passar a gente sobe, mas a Dona Lu Alckmin tem um trabalhão ali”, pondera.

NA INTIMIDADE

Carla nasceu em São Caetano, cidade onde morou até se casar, há dez anos. Formou-se em Fisioterapia, profissão que exerceu por longo período. Trabalhou, inclusive, no Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher), em São Bernardo, e depois no Hospital Mário Covas, até ficar grávida pela segunda vez. Ela é mãe de Orlandinho, 8, e Antonela, 6. Ficou um ano em casa e, quando voltou à labuta, foi para abrir sua primeira loja de franquia de chocolates. Hoje são duas unidades que gerencia: uma em São Bernardo e outra no Ipiranga. A vida de mãe, empresária e primeira-dama toma quase todas as 24 horas do seu dia. “Não tenho tempo livre. O único que tiro para mim é quando vou ao cabeleireiro, mesmo assim fico respondendo mensagens (faz gesto com o celular).”

A primeira-dama de São Bernardo costuma acordar cedo, fazer as lições junto com os filhos, sanar as demandas da casa e sai, no máximo, às 9h30 para trabalhar. Duas vezes por semana vai à Prefeitura e, no restante, se dedica às suas lojas. Só volta para casa por volta das 21h, e espera o marido para jantar. “À noite faço sempre a comida e janto com ele, independentemente do horário. Esse é o único tempo que podemos estar juntos, o da refeição. As crianças sentam com a gente.” E nestes momentos o assunto política é difícil ficar fora da pauta. “Na nossa conversa, 90% são sobre política. Quero saber tudo. Mas temos um trato que não posso fazer demanda em casa. Se quiser falar sobre o fundo tenho de marcar na agenda durante o expediente da Prefeitura, para tentar poupá-lo do trabalho de 24 horas (risos).” Embora goste bastante do assunto, ela refuta a possibilidade de entrar para a política, ideia que já foi ventilada nos bastidores de São Bernardo.

Profissional e pessoalmente Carla já está completa. Conseguiu ser mãe, algo que, conforme os médicos disseram, era quase impossível. “Tive muito problema de endometriose, mioma, tenho apenas uma trompa e meio ovário. A possibilidade de eu engravidar era de apenas 1% e coloquei na cabeça que seria uma coisa difícil. Com seis meses de casada fiquei grávida. Quando Deus manda...” Construiu uma família por obra de um acaso que ocorreu há pouco mais de 15 anos.

Explica-se: ajudava sua mãe na empresa que ficava no bairro Batistini, em São Bernardo, e, por conta da necessidade, costumava ir ao mercado da família de Orlando. Não lembra de terem se visto por lá, mas ele a paquerava. Tratou de descobrir o endereço da sua casa e mandou um buquê. “Liguei para agradecer. Ele disse que não dava para atender porque estava em um evento político. Eu não o conhecia, nem sabia que já era vereador. Me ligou uma hora depois e ficamos conversando.” Combinaram a visita de Orlando à empresa de sua mãe e, logo depois, saíram para jantar. Lá se foram 15 anos.

Carla, que não havia simpatizado com o seu nome (Orlando), mas agora ama, porque o escolheu para registrar o filho – o chama até hoje de namorado. E, por isso, não titubeia ao falar sobre o seu maior sonho, que é o de ter, pelo menos, 15 dias de férias com o marido e os filhos. “Nunca tivemos um tempo assim, nem na minha lua de mel. Foram nove dias, no máximo.” Mas ela entende a agenda atribulada do prefeito. “A cidade é grande, carente, precisa de muita coisa. Sei que o Orlando vai arrumar São Bernardo. Tenho convicção de que ele vai ser o melhor prefeito que a cidade já teve. Só de ele fazer um trabalho da maneira como está conduzindo já estou feliz. Tenho um orgulho muito grande dele”, conclui.




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