Até onde vai sua fé?

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Vanessa Soares e Vinícius Castelli

Diante de situações difíceis, psicóloga andreense e morador de São Bernardo conquistaram o que aos olhos humanos parecia impossível: a cura

Segundo o dicionário, fé é a “convicção intensa e persistente em algo abstrato que, para a pessoa que acredita, se torna verdade”. Já a Bíblia, no livro de Hebreus, define fé como “a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver”. Independentemente de crença ou religião, todos hão de concordar que a humanidade é finita e limitada. Algumas situações fogem do controle e, por mais conhecimento, condições financeiras ou acesso à informação, tem uma hora em que os recursos se esgotam. Mas, diante de situações adversas, alguns indivíduos, ao invés de desistir, decidem crer e conquistam, por meio da fé, aquilo que humanamente falando seria impossível.

A psicóloga Suzana Pauluci, 36, é prova viva de que a fé tem poder de curar. Diagnosticada com alopecia aerata – doença autoimune, que por razões desconhecidas provoca a queda dos cabelos, total ou parcial – ainda na adolescência, a andreense superou a sentença contrária dos médicos movida pela certeza de que Deus podia curá-la. “Tinha 15 anos. Fui ao dermatologista para tratar acne e pedi que ele examinasse meu couro cabeludo, pois estava com muita queda de cabelo. Logo ele identificou as falhas e me explicou do que se tratava”, relembra.

No auge da adolescência, o diagnóstico foi um choque. Além disso, a progressão da doença foi rápida e, em três meses, Suzana precisou de prótese capilar (peruca) para disfarçar as consequências da doença. “De acordo com os médicos, meu caso era irreversível”, conta. Não bastasse a perda total dos cabelos, ela também relembra a dificuldade do tratamento. “Tomava cerca de 15 injeções de corticoide no couro cabeludo semana sim, semana não. Sempre era um suplício ter que ir ao dermatologista.”

Após seis longos anos e já esgotada dos mais diversos tratamentos e nenhuma melhora, ela decidiu dar um basta. “Estava na faculdade, namorando meu marido e resolvi abandonar o tratamento e apenas confiar em Deus. A Bíblia diz que nenhum fio de cabelo vai cair da sua cabeça sem a permissão de Deus, então resolvi parar de ir contra a vontade d’Ele e, quando aceitei, meus cabelos voltaram a crescer. Em 30 dias já não usava mais a prótese”, comemora. E acrescenta: “Foi justamente a falta de esperança nos tratamentos médicos e depois de tentar de tudo e seguir à risca todas as recomendações que percebi que só me restava ter fé”.

CONFORTO

João Silveira (o entrevistado teve o nome mudado por sua vontade), 61, não era uma pessoa religiosa nem de fé. Morador de São Bernardo, foi diagnosticado com mieloma (câncer dos plasmócitos da medula óssea) há cerca de oito anos. No início teve febres altíssimas e um dos hospitais o tratou como se fosse um quadro de pneumonia. No segundo hospital, um dos maiores do Brasil, o mieloma foi diagnosticado por exclusão de outras possibilidades. “Tratamos os sintomas, mas não a causa diretamente.”

Foi aí que ele buscou ajuda alternativa. Foi a uma casa espírita para atendimento já direcionado para a saúde. “Fui em busca de ajuda, conforto, entendimento, não sei”, confessa. Foi ao local totalmente vulnerável ao quadro. “Acho que a gente fica assim quando espera melhora, busca na fé as esperanças que faltam nos homens”, diz. Depois de alguns gestos e preces, o médico espiritual pediu que ele refizesse os exames em um mês ­– aliás, a recomendação é de que a pessoa não abandone o tratamento físico, que faça tudo o que o médico da ‘matéria’ solicitar. Ele seguiu o pedido, refez e não tinha mais nada.

Depois da experiência de vida, João Silveira não se tornou religioso, tampouco devoto. Para ele, a fé veio como uma alternativa. “A minha fé me ajudou no sentido de me levar até lá e acreditar que eles poderiam me ajudar”. No médico, disseram que é um caso atípico de melhora, mas possível. “Faço acompanhamento para verificar possíveis novos sintomas. Mas em oito anos realmente nunca tive mais nada.”

EXPERIÊNCIA EMOCIONAL

Vencer desafios por meio da fé, ainda mais quando se trata de saúde, ainda é tabu para os médicos. Segundo o psicólogo André Correia, de São Bernardo, a psicologia não leva em conta curas de doenças físicas por meio da força do pensamento, mas leva em conta que a mente saudável é um terreno fértil para uma recuperação mais rápida. “Até porque, quando a pessoa tem a mente sã ou busca essa qualidade de vida emocional, a aceitação de tratamentos se torna mais fácil”, explica. O profissional diz que a psicologia sabe o quanto o emocional afeta o corpo, desde uma febre que a criança pode vir a ter por conta de algum desejo intenso a dores por abalos emocionais. Segundo ele, o corpo reage de forma positiva “diante de postura mais animada”. Também fala-se em efeito placebo.

Para o especialista, fé é uma experiência emocional e não tem necessidade de provas físicas, pois é a crença baseada em uma certeza pessoal. Ele diz que o ato de fé é comparado com os mesmos mecanismos do prazer meditativo, de estados alterados de consciência tranquilizadores. “A existência ou não de alguma entidade superior está além do questionamento da pessoa que crê, pois é a sua experiência emocional que certifica categoricamente a sua fé na existência positiva”, encerra.

Posicionamento endossado pelo bispo dom Pedro Carlos Cipollini, da Diocese de Santo André. “Nós, cristãos, acreditamos na cura pela fé. Na história, muitas pessoas desenganadas recorrem às orações e são atendidas. A fé tem um poder muito grande no sentido de colocar o doente em outro estado de ânimo. Muitos médicos, inclusive, reconhecem esse valor. A fé mobiliza a pessoa de uma forma muito intensa, misteriosa. Mas a cura vem de Deus, por meio da fé. Mesmo assim, a pessoa não deve desprezar o trabalho dos médicos e o tratamento que eles recomendam.”




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