Toda forma de amor vale a pena

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Miriam Gimenes

João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém. Não importa o número de amores não correspondidos do famoso poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. O que vale, na verdade, é que quase todos ­– exceto Lili ­– tinham alguém a quem dedicar o sentimento, responsável não só por liberar hormônios relacionados ao bem-estar, como também por estimular o corpo, dar disposição e, consequentemente, beneficiar a saúde, ainda que platônico seja.

Sim, porque o amor, segundo estudos, faz com que o cérebro receba mais sangue, principalmente quando o pensamento seja o alguém a quem o sentimento é designado, o que melhora as atividades do órgão. Segundo o doutor em psicologia e professor de Relacionamentos Amorosos e Comunicação na USP Ailton Amélio, pesquisas apontam que ter alguém para direcionar o sentimento no dia a dia é muito benéfico à saúde. “Essas pessoas ficam menos doentes e, quando ficam, se recuperam na metado do tempo. Tem impacto direto na saúde física e mental”, explica. E esse sentimento não precisa ser apenas no aspecto romântico, acrescenta. 

O inverso também é verdadeiro: relacionamentos ruins afetam o funcionamento do corpo. “A pessoa está sempre estressada, porque ativa as glândulas suprarrenais, que liberam o cortisona, o hormônio do estresse. A pessoa briga muito, o cortisol fica lá em cima e acaba com as defesas do organismo. Não basta ter um relacionamento, tem de cuidar bem dele. Não basta ser formal, tem se ser exercido”, sugere Ailton. 

Quando o amor é correspondido e bem consolidado, o hormônio produzido é a oxitocina, substância que está relacionada à sensação de bem-estar e prazer. Segundo o blog do The New York Times, a liberação deste elemento, inclusive, melhora o desempenho esportivo e as atividades competitivas. Ou seja, atletas que amam estão em vantagem. 

 

É IMPORTANTE ESTAR ATENTO

No livro Amor de Todas as Formas, (Pandorga, R$ 33,75, em média), diversas autoras reúnem contos que expõem o sentimento nos mais variados tipos. A ideia é mostrar que não existe um jeito certo de amar nem a hora certa de ele chegar. O importante é abrir o coração e sair do convencional. “Ele (amor) pode aparecer durante uma tarde no shopping ou em uma fila de supermercado. É importante saber  identificá-lo”, diz uma das autoras, a baiana Tatiana Amaral. 

Foi o que fez o casal Giovanna Ferraz, 24 anos, e Amine Shaimi, 29. Ela, brasileira e católica, e, o rapaz, francês e muçulmano. Em abril de 2013, a moça resolveu cruzar um oceano ­– e deixou um namorado aqui –, para fazer intercâmbio em Oxford, na Inglaterra. Amine trabalhava na mesma escola em que ela estudava e, na primeira vez em que trocaram olhares, a moça se encantou. “Desde o início a gente se interessou um pelo outro, mas nunca dei corda porque tinha namorado. Um mês depois da minha chegada terminei com o meu ex, mas continuei não dando corda. Mesmo assim, todo dia de manhã eu chegava e dava bom dia com um sorrisão para ele. E nisso, Amine entendia os sinais”, lembra Giovanna.

Trocaram as primeiras palavras apenas em agosto do mesmo ano, em uma balada que foram em comum. O rapaz pediu para tirar uma foto com ela, que de pronto aceitou. Depois Amine sumiu. “Quando vi, ele estava com outra garota. Dia seguinte encontrei ele no Facebook, descobri seu nome e o chamei no inbox. Pedi a nossa foto do dia anterior, perguntei se ele tinha se divertido e ele disse que não porque não tinha dançado comigo.” Combinaram então de se encontrar em outra balada e, desde então, deram chance ao amor. 

Só que, por força do destino, Amine teve de ir embora 20 dias depois daquele ‘sim’ ao relacionamento. Eles se viram algumas vezes, mas apenas quando Giovanna voltou para o Brasil, em fevereiro de 2014, ele veio para cá encontrar os pais dela. 

Em julho de 2015 falaram em morar juntos. Mas só em março do ano seguinte, pouco depois de se formar, Giovanna fez as malas e partiu para a França. “Peguei meu diploma, me demiti e fui. Em maio do ano passado ele me pediu em casamento e em outubro nos casamos no civil e na cultura marroquina.” Durante a cerimônia, Giovanna fez cinco trocas de roupa ­– o vestido branco usou durante o civil. Foi uma festa e tanto. 

E dividir o teto com um estrangeiro ­– o que pode ser um fator de medo em início de relacionamento –, segundo ela, não houve problema. “Ele me ajuda muito mais do que os namorados das minhas amigas, por exemplo, porque sempre ajudou a mãe nas tarefas. E isso é bizarro porque a gente cresce com uma ideia de que a mulher deve fazer tudo e na minha casa não é assim.” A única época mais difícil, acrescenta, é o Ramadan (mês no qual os muçulmanos praticam jejum), porque ele passa o dia sem comer e só se alimenta quando o sol se põe. “E aí, lógico que ele fica de mau humor, indisposto e come o dobro do normal. De resto, tudo anda. O Amine tem a cabeça muito aberta e cada dia abre mais e mais, talvez por ter nascido e morado na França a vida toda.” O casal, que atualmente mora no Canadá, se casará em outubro aqui no Brasil. 

E é importante manter essa cumplicidade, saber respeitar as diferenças, mesmo depois do ‘felizes para sempre’. Em um dos contos do livro já citado, de autoria da Tatiana, ela mostra o que acontece com um casal oito anos depois de casados. “É uma história de amor real, de uma mulher que se sente insegura depois de ter dois filhos, mostra inclusive a insegurança dos dois, mas que o amor existe e persiste se houver admiração.” Fica a dica. 

NA INTIMIDADE

Mês passado,  o músico, apresentador e radialista Antônio Carlos Senefonte, mais conhecido como Kid Vinil, morreu aos 62 anos, após ficar mais de um mês internado. Ele passou mal depois de um show em Minas Gerais, teve parada cardíaca e ficou em coma induzido. 

O?fato é que durante seu velório foi feita uma foto em que seu cachorro de estimação, Kosmo, um golden retriever de 13 anos, se despede dele. Nas reportagens iniciais, dizia-se que um amigo, que sabia da proximidade dos dois, o havia levado para este adeus final. 

Dias depois, esse amigo ganhou nome, no caso o advogado Jaime Gaeta. Ele revelou ter sido companheiro de Kid por 30 anos. Disse, em entrevista ao UOL, que não falaram sobre o relacionamento antes porque não queriam se expor. “Ia ter um impacto muito grande na carreira dele, e eu também tinha uma carreira jurídica, os tempos eram outros. Optamos em abrir apenas para amigos próximos.” Sim, eles formaram uma família. E é uma pena, portanto, que Kid, por conta dos ‘padrões sociais’,  não possa ter gritado aos quatro cantos que toda forma de amor vale a pena.

 

Um é pouco, dois é bom, três...

Há quem torça o nariz para a ideia de ter mais de um amor –­­ ao mesmo tempo –, mas tem aqueles que não se importam com a ideia. É para esses que foi escrito o livro Poliamor & Relacionamento Aberto (Panda Books, 144 páginas, R$ 35,90, em média). Nele, o autor Alexandre Venâncio dá dicas para interessados neste tipo de relacionamento e os faz se sentirem menos culpados, afinal, há quem tenha a mesma vontade. 

E tem diferença: no relacionamento aberto não se permite envolvimento emocional. “Não pode assistir à Netflix junto”, brinca Venâncio. Já no poliamor, isso é permitido e existem as mais variadas opções ­– entre três pessoas ou mais. “É um tipo de relação que podemos achar que não acontece, coisa alienígena,  mas não é verdade. É mais comum do que a gente imagina”, diz o autor. 

E é possível amar mais de uma pessoa? “Acredito que sim. Uma mãe não ama dois filhos? É outro tipo de amor, mas é amor. E quem disse que o amor carnal não pode ser diferente?“, questiona.




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