‘A floresta em pé vale muito mais do que deitada’

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Miriam Gimenes

Defensor do meio ambiente, cujo dia mundial é comemorado este mês,  o ator Marcos Palmeira não usa da fama para levantar bandeiras. Ele as flameja sim ­–­ seja a da arte, da natureza ou política –, mas no papel de cidadão, que é o único que veste 24 horas por dia

Por muito tempo o Brasil foi conhecido como terra das palmeiras. Ou melhor, pindorama, na língua tupi-guarani. Era assim que os índios chamavam o local em que viviam ­– por conta da infinidade de árvores desta espécie – e foi, em 1500, ‘descoberto’ pelos portugueses. Coincidência ou não, Marcos, um singular defensor do meio ambiente, carrega esta planta no sobrenome herdado do avô materno, e o repassou também à sua fazenda agroecológica Vale das Palmeiras, em Teresópolis, no Rio, onde tem um armazém de produtos orgânicos. “Sou ligado nas questões ambientais, acredito muito na agrofloresta como uma forma de recuperar a área degradada e ao mesmo tempo produzir alimento.”

É justamente isso que ele faz ao utilizar a agricultura biodinâmica ­(sem agrotóxicos e sustentável),  cujos produtos abastecem não só os arredores da fazenda, como também uma rede de mercado carioca e inúmeros restaurantes do Rio de Janeiro, entre eles o Olympe, do chef Claude Troisgros. Dá para entender, portanto, a paixão que o ator, no ar como Toni, em ‘Os Dias Eram Assim, da Globo’, tem pela natureza. “(Gosto) de pensar em sustentabilidade, enxergar a qualidade de vida como uma coisa fundamental, e não só o acúmulo de riqueza. Sou um ator ambiental, ou um ambiental ator”, reflete. Homem de essência simples, Marcos, 53 anos, fala na entrevista a seguir sobre a sua herança artística –­ é filho do diretor Zelito Viana e sobrinho de Chico Anysio –, o que pensa sobre o momento político do País, para quem direciona seu apoio, a importância da arte e do papel do cidadão, e o que o leva a manter, literalmente, os pés no chão.

Você veio de uma família de artistas. Tinha como fugir do DNA?

Acho que não. Desde pequeno sempre tive meu tio (Chico Anysio) como grande exemplo para mim. Nunca projetei ser ator, mas foi uma coisa que aconteceu naturalmente. Trabalhei no Museu do Índio, já fui assistente de produção. Em cinema fiz quase tudo de equipe, já fui técnico de som, boomman (operador de microfone), várias coisas. Ser ator foi inevitável. Mesmo repetindo de ano na escola, meus pais nunca me tiraram do teatro.  Talvez esse tenha sido o maior incentivo. O teatro nunca foi um problema, eles sempre viram o teatro como solução. 

A novela ‘Velho Chico’ falou sobre a agricultura orgânica. Aquele trabalho foi singular na sua carreira, até por defender também os seus ideais?

Esta foi a primeira vez que colocaram no horário nobre, dentro de uma novela, uma questão ambiental tão forte, a discussão da sintropia (produção agrícola que trabalha em comunhão e sintonia com a natureza e seus recursos), no caso da agrofloresta. Fiquei muito feliz de fazer parte. Infelizmente tivemos uma tragédia no final da novela (morte de Domingos Montagner), muito triste, mas acho que foi um trabalho digno de todo mundo. O agronegócio tem uma grana preta de mídia, de marketing, das grandes empresas e marcas. Já a agroecologia e agricultura familiar dependem do dia a dia de produção. Acabo, de alguma maneira, usando até um pouco da minha imagem para isso. Quando ela está inserida dentro de uma novela que está falando disso, fica melhor ainda. 

Como construiu o seu atual papel em ‘Os Dias Eram Assim’?

A construção do Toni foi mais de tentar entender que homem seria esse naquela época da ditadura, onde as coisas estavam todas acontecendo. E quem é esse cara que participa indiretamente daquilo ali, que não é um militante, mas também não é um reacionário. Pelo contrário. É atualizado, antenado com as coisas que estão acontecendo e do bem. Esse é o meu objetivo na supersérie: interpretar um homem de alma boa.

É difícil ver que alguns ideais de poder, que existiam àquela época, persistem até hoje? Digo isso por conta do Arnaldo (Antonio Calloni), que conseguia o que queria por ter dinheiro.

Com certeza. A gente vive até hoje esse fantasma da ditadura. As pessoas ainda trazem essa falsa impressão de que naquela época era melhor. A gente está sempre projetando em algum outro lugar e esquecendo muito do passado. Foi uma época terrível para o Brasil, que a gente tem que realmente passar uma borracha em cima. Mas as cabeças continuam, tem muitos políticos que ainda pensam dessa forma. 

A época da ditadura militar foi bastante dura para o País, tanto que é lembrada como anos de chumbo. Como vê pessoas que ainda hoje clamam pela volta da ditadura?

Ainda existe essa fantasia em relação aos militares, acho que hoje nem eles se interessam mais em pegar esse pepino. Mostra muito essa relação do dinheiro, do poder. A gente está vivendo muito isso, as grandes empreiteiras, as grandes empresas que se beneficiam do Estado, enriquecem. Esse é o grande marketing. Quando vemos empresas como a JBS envolvidas em tudo isso, que se diz produtora de alimento, mas produz tudo, menos alimento. Produz corrupção. Isso vem lá dos velhos tempos, desde o Império. O Brasil já foi descoberto para ser explorado. Seguimos sendo explorados. 

Como vê esse momento de turbulência política que o Brasil vive hoje?

O Brasil vive o fruto da falta de investimento nesses últimos 20 anos em Educação de verdade. A gente perdeu uma chance enorme de formar um novo cidadão que pensa, que se articula, que tem reflexões sobre a vida. Todo mundo já sabia que existia a corrupção, mas quando a gente vê o nível do que é, os governos se juntando com as empreiteiras, com as grandes empresas, o BNDES financiando essas grandes empresas para se beneficiar também, vemos como é lamentável. Este é um momento muito triste, mas muito importante para ser vivido. Quando se levanta o lodo da lagoa sobe o cheiro forte. Não é que a lagoa está mais suja, só está vindo à tona o que já existia ali. É isso que a gente está fazendo. Tem que agora decantar uma água de qualidade, uma terra de qualidade no fundo dessa lagoa. Temos de limpar realmente, expurgar esse mal que é a corrupção, dar toda a força à Lava Jato. Quem estiver errado tem que pagar. 

Por que apoia o projeto da Rede Sustentabilidade?

Porque estou muito alinhado ao pensamento da Marina (Silva), que é o da formação de um novo cidadão. Ela é muito bombardeada com questões que não fazem parte dela. Bombardeiam porque a religião dela é a evangélica, mas nunca viram ela falando em Deus, ou porque ela é homofóbica, mas ela nunca fez uma declaração demonstrando que é. Ela não aparece porque não tem espaço. Está nas mídias sociais, no site da Rede, está sempre escrevendo artigos para internet. A Marina não é uma eterna candidata a presidente. Se surgisse uma pessoa interessante, que tivesse uma visão ambiental mais forte de sustentabilidade, um olhar diferente para a economia e para o País, ela daria força. Ela não tem essa vaidade de ser a presidente da República, e é isso que me encanta nela. Ao mesmo tempo ela não foge da raia. Se tiver que ser vai ser, como foi quando o Eduardo Campos morreu (2014). Não faz a campanha do contra, que é o que me incomoda nas pessoas que gostam do radicalismo, só quer somar e aceitar as diferenças. Isso que me interessa na Rede. É uma luta. 

Junho é o mês do meio ambiente e você, inclusive em sua fazenda, sempre teve a preocupação com ele. Como definiria seu papel como ‘amigo do meio ambiente’?

É sempre importante pensar na preservação ambiental. Vivo isso 24 horas por dia. Tenho uma fazenda agroecológica, um armazém de produtos orgânicos aqui no Rio, a Vale das Palmeiras. Sou ligado nas questões ambientais, acredito muito na agrofloresta como forma de recuperar a área degradada e ao mesmo tempo produzir alimento. Comungo da ideia de que a floresta em pé vale muito mais do que deitada. É uma pena a gente dar tanta importância a commodities quando a gente fala de agronegócio, e não de produção de alimento. Ali eles vendem a soja para ser transformada em ração, e nós compramos ela de novo aqui. A gente não precisa mais ter área desmatada para produzir alimentos, temos que ter outro olhar. Pensar na sustentabilidade, enxergar a qualidade de vida como uma coisa fundamental, e não só o acúmulo de riqueza. Sou um ator ambiental, ou um ambiental ator (risos).

Você tem uma relação próxima com os índios. Como começou isso?

Trabalhei três anos no Museu do Índio, aqui no Rio de Janeiro, no início da década de 1980. Fui assistente do João Domingos Della Mônica, que era o fotógrafo do marechal Rondon, e foi uma experiência incrível. Com o Mônica aprendi até mais sobre as relações humanas do que sobre a técnica da fotografia. Meu pai fez um filme chamado Terra dos Índios, em 1974, 75, e encontrou com vários índios pelo Brasil. Um belo dia apareceram quatro xavantes lá em casa. Fiquei totalmente enturmado com eles e no final do ano me convidaram para ir para a aldeia. Fui e a partir dali começou a minha relação com os índios. Até hoje tenho padrinho índio, irmãos xavantes, depois já estive nos Axanincas, estive nos Pataxó, nos Arara também. Participei da primeira expedição de contato com os índios Arara no Pará na década de 1980. Acho que o Brasil ainda não acordou para os índios. A gente não consegue enxergá-los como os verdadeiros guardiões da floresta. Toda área de reserva indígena é onde está a floresta mais bem preservada. Nós viemos deles, desses índios, então temos de olhar para eles com respeito. Um país que não valoriza sua cultura não se transforma socialmente. 

Como vê a maneira que eles são tratados no Brasil, lembrando que há pouco houve um massacre de índios no Maranhão?

Massacre acontece o tempo inteiro. Foi em Belo Monte também, agora esse massacre lá no Maranhão, que é um absurdo. E ao mesmo tempo tem outros índios que estão batalhando. Os Pataxós estão tentando resgatar sua cultura. Eles foram os índios mais massacrados do Brasil, que ficaram desde o descobrimento na Bahia. Os índios sofrem e estão sofrendo o tempo inteiro porque ninguém noticia isso. Mas é constante a luta entre fazendeiros e índios, e é desigual.  É lamentável a situação que eles estão vivendo.

Você usa da sua fama para levantar bandeiras. Qual acha que é o papel do artista com seu País?

Não uso a minha fama para levantar bandeiras. Faço o meu trabalho como cidadão que sempre fui, mesmo antes de ser um ator conhecido. Sempre tive opinião política. O artista é livre, não tem de ter um patrulhamento. A pessoa não é obrigada a ser engajada em alguma coisa. Temos que ser pessoas éticas, do bem, responsáveis, comprometidas com o que acreditamos, isso é o mais importante. E tem vários atores engajados, cada um nas suas campanhas. O que acabo usando ao meu favor é o fato de ser um cara conhecido e que trabalha com agroecologia de verdade. Então isso não é uma invenção, não é um marketing. Consigo, às vezes, fazer uma palestra ou falar com pequenos produtores, juntar mais gente que esteja interessada em ver o artista e que acabam ouvindo um pouco sobre a agroecologia. Isso eu acho interessante.

Qual o ônus e o bônus da fama?

Isso é complexo. É claro que pelo fato de você ser muito conhecido, talvez hoje em dia ainda mais com as mídias sociais, todo mundo tendo acesso a tudo, você sofre um pouco com a patrulha do politicamente correto, que é um pouco chata. Mas tem muitos bônus também. É um trabalho que eu gosto, as pessoas me tratam com muito carinho. Essa possibilidade de levar entretenimento para as pessoas é muito legal. Outro ônus é essa coisa de ficar limitado em alguns lugares, mas não vejo muito problema, não sofro muito com isso. Não sou um cara muito assediado por paparazzi, nunca me preocupei muito com isso, então levo uma vida muito tranquila. Mantenho sempre a cabeça no lugar, o pé no chão e toco em frente, não me deslumbro muito com as coisas, não.

Você, embora tenha passado a vida nos holofotes, parece ter uma essência simples. Estou certa?

Lido com o lúdico e com as artes e cultura muito profundamente, e lido muito com o pé no chão. Trabalho com agricultura biodinâmica, onde você considera todo o cosmos, todo o entorno, então consigo ter as raízes bem fincadas e ter a cabeça bastante nas nuvens também. E levo a vida com muita simplicidade. Acho que simplicidade é o segredo da vida, da felicidade.

Como é o Marcos no papel de pai?

Procuro ser o pai mais atencioso que  posso com a minha filha (Julia, do casamento com Amora Mautner), mais carinhoso e tentar respeitar sempre muito o que é dela, a personalidade dela, as vontades dela. Vou tocando e tentando ser o melhor exemplo possível. Ser um exemplo no que faço e muito mais no que  falo.

Pensa em ter mais filhos?

Ah, filhos a gente sempre pensa, né? Agora estou casado com a Gabi (Gabriela Gastal), acho que a gente está deixando ver. Nós dois já temos filho, ela tem uma filha também. Não existe essa ansiedade no casal, e se tiver que ser, o cosmos vai trabalhar para nos ajudar (risos)

Está fazendo o documentário ‘Manual de Sobrevivência ao século 21’? De que se trata e quando deve ser lançado?

É um manual onde a gente mostra experiências que são feitas no Brasil ligadas à qualidade de vida. São 13 episódios em que falamos  de água, de esgoto, saneamento, espiritualidade, energia, então é muito interessante. É dirigido pelo João Amorim e devemos estrear em junho no CineBrasil TV.

Qual é seu sonho hoje?

É a gente ter um País melhor, com mais Educação, que o povo tenha mais acesso, mais distribuição de renda. E a grande tristeza é essa, que a gente vê que a renda está cada vez mais acumulada. É menos gente ficando mais rico, quando deveria ser mais gente tendo dinheiro, podendo ter qualidade de vida, viver bem. Meu sonho é viver em um País socialmente justo, economicamente viável, sustentável e  ambientalmente correto.

 

 




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