Mãe, seja!

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Miriam Gimenes

Em 2011 encarei uma ponte aérea até o Rio de Janeiro para entrevistar Lucinha Araújo, mãe do cantor Cazuza (1958-1990). Depois de uma conversa de mais de uma hora, ela disse uma frase que virou título da reportagem e nunca mais esqueci: ‘Filho não vem com bula’. Eu, que ainda nem era mãe, fiquei tocada com a declaração e hoje entendo, de coração, o que ela quis dizer. 

Dizem que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. Concordo. E com ela vêm as dúvidas, angústias e, principalmente,  a culpa, que acompanha a vida materna diariamente. Foi para amenizar esse peso ­– e, para mim, ratificou a mensagem de Lucinha – que a jornalista Rita Lisauskas escreveu o livro, recém-lançado, Mãe sem Manual (Belas Letras, 112 páginas, R$ 39,90, em média). “A ideia foi fazer um antimanual para sugerir que existem vários jeitos de ser mãe, e nenhum deles é errado. Claro que existem coisas que são cientificamente comprovadas como melhores, como o parto normal e a amamentação com leite materno, por exemplo. Temos que lutar pelo melhor. Mas e se não conseguirmos, se formos enganadas, se nosso ritmo de trabalho no fim da licença-maternidade nos tirar de perto do nosso filho por mais horas do que o ideal e se o cansaço nos dominar e a gente jogar para o alto tudo o que sonhou e planejou, o que fazer? Temos que nos perdoar, nos dar um abraço apertado e seguir em frente. O livro é esse abraço apertado, um #tamojunta, amiga”, explica. 

Rita teve Samuel em 2010. Ali nasceu a mãe??“O deslumbre foi automático, mas a ficha só caiu no dia a dia. E é bom que as mães saibam que o amor pode ser automático, mas também pode não ser. E tudo bem!” A romantização da maternidade, para ela, é uma crueldade. “Mostrar aquelas mães penteadas, bem vestidas, magras e felizes no pós-parto em propagandas pode passar a ideia errada do que é o puerpério, esse período após o nascimento do bebê. Claro que a maternidade tem seus encantos, mas ela também é muito difícil e as mulheres precisam saber disso.”  

Entre os assuntos abordados, estão o parto normal versus cesariana, volta – ou não – ao trabalho, a participação do pai e, é claro, a amamentação. “Amamentar foi uma surpresa ruim, porque ninguém me explicou que era algo a ser pesquisado e aprendido e eu achei que era só colocar meu filho no peito para a ‘mágica acontecer’. O capítulo sobre amamentação é gigante. Conto o meu fracasso, conto o que  aprendi com ele, e dou vários caminhos para a mulher que quiser se preparar para essa fase.” E, entre os ensinamentos para a vida, ela, que brinca dizendo que era uma ‘ótima mãe’ até o filho nascer, aconselha a nunca julgar a atitude da outra. Afinal, como me disse Lucinha, na entrevista já referida, cada uma sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mães, apenas sejam!




Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2017. Todos os direitos reservados