Cabra arretado

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Vanessa Ratti

Na gíria nordestina, a palavra ‘arretado’ serve para valorizar algo ou alguém bem ‘porreta’. Significa ser valente e batalhador, o que traduz muito bem o povo nativo da região, que vai além das belas praias, destinos certeiros para as férias. E como bom cearense, essa palavra também define Marcondes Falcão Maia, o cantor Falcão. Filho do Nordeste, ele nasceu em casa simples – que não tinha nem eletricidade – , batalhou e venceu com garra. Hoje, o artista é exemplo de simplicidade, o que o ajuda a manter sua carreira com muita solidez.

Arquiteto de formação, Falcão tem nove discos lançados e soma mais de 5 milhões de discos vendidos ao todo, ganhando o título incontestável de rei da música brega brasileira. Mesmo assim, aos 59 anos, ele não perdeu a humildade de menino do Interior. Ao atender a Dia-a-Dia com o bom humor de praxe, mostrou que merece estar onde está: passando por cima de novos desafios.

E é assim que ele explica a nova fase e a ‘fuça’ estampada em centenas de cartazes espalhados em várias salas de cinema de todo o Brasil. Falcão faz parte do elenco do filme O Shaolin do Sertão, na pele de mestre chinês fajuto, seu primeiro papel, de fato, nas telonas — em Cine Holliúdy fez participação especial. “Não tinha essa aparência de ator, mas agora tenho. Acho que até eu me surpreendi comigo mesmo nessa experiência, gostei do resultado.”

O diretor do longa, Halder Gomes, também já fez o convite para o próximo personagem de Falcão, que será no filme Cine Holliúdy 2. “Ainda não recebi o roteiro e vamos começar a gravar em breve, mas sei que o personagem tem bem mais ênfase e será ainda mais desafiador interpretá-lo.”

E são surpresas atrás de surpresas. Atualmente, Falcão também está no ar apresentando o talk show Leruaite – inicialmente na TV Ceará , agora, na TV Diário –, em que entrevista personalidades e pessoas anônimas com boas histórias para contar. O mais importante para ele é valorizar a simplicidade. “Gosto de pegar uns doidos, mais do povo. Por exemplo: um vendedor de sorvete, pipoqueiro. Essas pessoas que têm histórias de vida interessantes e podem agregar valor para o programa, e também para mim”, revela.

E é isso que, segundo ele, faz com que a produção seja diferente de outros talk shows que estão no ar, como o The Noite, com Danilo Gentili, no SBT, e O Programa do Porchat, na Record, feito por humoristas. “Estou vivenciando a televisão e é outra coisa que estou gostando de fazer. Tenho que criar as perguntas certas para as pessoas, falar sobre muitas coisas e isso é difícil”, confessa. Por outro lado, ele exalta a nova leva de comediantes que está surgindo, principalmente no Sudeste, e indica que é um novo ciclo para a comédia. “Este estilo dá oportunidade para muitos terem seus próprios programas e isso caiu como uma luva para quem é comediante, já que temos tudo na ponta da língua, sempre no improviso. Além, disso, não é formato tão caro”, completa o artista.

Como cantor, o cearense é incontestável. Carreira que começou em festival, no ano de 1988, parecia improvável vingar, mas graças à personalidade do extravagante artista, subiu ao palco e agradou, e muito, o público. Mesmo com as críticas dos jurados, ele confiou nos aplausos e decidiu investir na carreira. Embora se julgue limitado musicalmente – Falcão aprendeu a tocar apenas quatro notas no violão –, o forte do cantor são mesmo as composições. “O que julgo mais importante é a mensagem que quero passar. Às vezes, tem um pouco de esculhambação, mas outras tem também teor político e que podem agregar para a sociedade.” O primeiro disco do cearense, Bonito, Lindo e Joiado, foi lançado dois anos depois.

Logo, o cantor percebeu que eram as músicas norte-americanas que vendiam mais. Ele, então, resolver incluir termos gringos nas letras. Dito e feito:?depois disso, veio um sucesso atrás do outro. As canções I’m Not Dog No, I Love You Tonight ­– trilha sonora da novela A Indomada (1997), da Rede Globo – , Hollyday Foi Muito e outras fizeram com que ele conquistasse legião de fãs, além do Nordeste. Em 2015, surgiu o disco Sucessão de Sucessos que se Sucedem Sucessivamente Sem Cessar, o que deixa claro que a irreverência ainda faz parte de sua carreira. Recentemente, o artista lançou o clipe da música Ô Povo Fei, em parceria com Danilo Gentili, que está disponível no YouTube e tem mais de 50 mil visualizações. Antenado nos assuntos do momento, Falcão não ficou de fora da moda do Pokémon Go. Ele criou aplicativo para caçar ‘chifrudos’, com o nome de Corno Go. ‘É a maior novidade cornológica de todos os tempos’, diz a descrição do aplicativo na loja do Android. Basta focar em alguém para encaixar um chifre na medida.

FIGURINO

O fato de Falcão ser conhecido, principalmente, pelas roupas coloridas não o incomoda nem um pouco. Muito pelo contrário. E respondendo a uma das principais curiosidades das pessoas em relação ao tema, ele revela que não, não anda assim, ‘montado’, todos os dias. “O que gosto no meu figurino é que as pessoas ficam alegres quando me olham. É instantâneo. Me perguntam: ‘Cadê o girassol?’, conta. Quando começou na carreira, todas as peças do seu visual eram garimpadas em brechós. Mas hoje quem cuida do figurino do artista é sua mulher e também sua mãe. “Às vezes, eu saio com o chinelo pendurado no pescoço, bem doido mesmo, e de propósito, só para ver o que as pessoas vão falar. Não dá outra: faço todo mundo rir”, completa.

Uma coisa é certa: com figurino ou sem, na televisão, teatro, cinema ou música, Falcão continua sendo ele mesmo. Autêntico que só. E se depois de ler esta reportagem você ainda duvida que o cabra ‘arretado’ manda bem também nos cinemas, não deixe a curiosidade te consumir. Corra para as telonas.




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