Sonhos viram realidade

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Miriam Gimenes

Kat nasceu na Nova Zelândia em 1992. Filha do neozelandês Robert e da brasileira Jeanne, carregou consigo o vírus HIV, o mesmo que levou seus pais um pouco depois. Mas como o destino se encarrega de dar as coordenadas, um casal brasileiro, conhecido por grandes expedições nos mares do mundo, Vilfredo e Heloísa Schurmann, havia conhecido os dois um pouco antes disso e, quando a menina tinha 3 anos, foram incumbidos de seguir com a pequena. “Um 'Ser Superior' conspirou e conectou as pessoas para se encontrarem no mesmo caminho”, acredita Heloísa. A menina ganhou, então, o Schurmann em seu nome e mudou de vez o vento que os guiava nesta aventura chamada vida.

A intensa e breve história de Kat, que faleceu aos 13 anos por complicações decorrentes do vírus, poderá ser assistida, a partir do dia 10, no longa Pequeno Segredo. Dirigido por David Schurmann, foi escolhido pela Academia para ser o representante brasileiro na disputa pela indicação ao Oscar de 2017, o que gerou descontentamento para quem torcia por Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. Alega-se que o filme estrelado por Sônia Braga foi tirado de cena por questões políticas. Pois bem. Passado o furacão deste 'entrave cinematográfico', o longa, que tem Julia Lemmertz no papel de Heloísa (foto acima) e Marcello Antony como Vilfredo, mostra a que veio.

É que, além das cenas belíssimas proporcionadas pelas expedições feitas pela família durante o filme, a história contada é singular e, por diversas vezes, emocionante. Afinal, o que leva um casal, que já está com a vida consolidada, com três filhos 'criados', a adotar uma menina de 3 anos com HIV? O amor, puro e transcedental. “Não se explica, não tem fórmula. Simplesmente acontece e de maneira avassaladora. Quando Robert nos procurou com Kat nos braços, estava confiante de que poderíamos prover vida intensa e feliz para Kat. Enfim, foi tudo tão certeiro”, justifica He­loísa. E, claro, teve também um fator cha­mado sonho que, mesmo em caminhos não tão fáceis, se tornou realidade. Confira belíssimo relato da mãe de coração de Kat para a Dia-a-Dia.

O filme mostra que o amor de mãe independe dos laços sanguíneos. Como você definiria, então, a sua relação com Kat?

Como mãe, meu amor incondicional por meus filhos sempre foi igual. Os laços sanguíneos não ‘aumentam’ meu amor por Pierre, David e Wilhelm, filhos biológicos, em comparação ao meu amor por Kat. Meu amor pelos quatro é igual e intenso. Não tem como ser medido e comparado. É o amor de coração, que grita alto, bate com força. Mas com certeza Kat teve que ter mais cuidados e foi mais mimada do que os meninos.

Vocês tiveram três filhos homens antes de ter a Kat. Sempre sonhou ser mãe de uma menina?

Esse era um sonho sim e a vida é mesmo mágica. Durante nossa primeira volta ao mundo (a viagem começou em 1984 e ‘terminou’ dez anos depois), fiz amizade com as nativas do Taiti. Antes de a gente partir de lá, algumas trouxeram suas filhas para mim. Elas defendiam que toda mãe precisa ter uma filha, uma menina que será para sempre sua companheira. O mais curioso é que foi justamente durante esta viagem que conhecemos e iniciamos nossa amizade com Jeanne e Robert, os pais biológicos da Kat, que, por causa da saúde comprometida, nos escolheram para adotá-la.

O desafio de criar uma criança, principalmente depois de ter três filhos crescidos, não é fácil de aceitar. O que te fez ter certeza de que Kat teria de ficar com vocês?

Amor incondicional. É algo que não se explica. Não tem fórmula. Simplesmente acontece e de uma maneira avassaladora. Quando Robert nos procurou com Kat nos braços, contou o que tinha acontecido com Jeanne (ela havia falecido), o que estava acontecendo com ele (sua saúde já estava bastante comprometida), a decisão deles, houve a confiança de que poderíamos prover uma vida intensa e feliz para Kat. Enfim, foi tudo tão intenso e certeiro.

Lembra-se da primeira vez que a viu?

Foi na Nova Zelândia, nos braços de Jeanne, bebê de quase 6 meses, pequena para sua idade, mas me chamaram a atenção os olhinhos curiosos dela e o doce sorriso.

Uma vez entrevistei Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e ela me disse que se soubesse que o filho iria morrer tão cedo teria o mimado mais. Pensa da mesma forma em relação a Kat?

Por Kat ter passado momentos tão duros na vida dela, com a perda dos pais, exames médicos difíceis, remédios de gosto ruim e porque a amo, mimei Kat muito mesmo. Nunca pensei que ela fosse morrer tão cedo.

Acredita na cura da Aids?

Tenho esperanças e acredito que esse dia chegará. Tantas coisas mudaram daquela época para cá. A medicina e os tratamentos evoluíram muito. Quantas crianças nascem com o HIV e, com os cuidados corretos, conseguem negativar? Muitas. Milhares. Muitas crianças já nascem sem o vírus mesmo que suas mães o tenham. A própria história da Kat é um exemplo de superação e um símbolo de esperança. Quando a adotamos escutamos coisas terríveis e conseguimos contrariar previsões e estimativas de médicos e hospitais referência da época.

São mais de três décadas que a família Schurmann veleja pelos mares do mundo. Qual foi a maior lição que tirou dessa experiência singular?

Sonhos viram realidade. Não como um passe de mágica, mas com muita dedicação e empenho. Quando decidimos trocar a terra firme pela vida no mar, muitos disseram que aquilo era loucura. Pois bem: 32 anos depois de zarparmos pela primeira vez estamos às vésperas de concluir nossa expedição Oriente, nossa terceira volta ao mundo a bordo de um veleiro. Quando Kat chegou nas nossas vidas também enfrentamos opiniões e conselhos pessimistas. Nos dedicamos com muito amor a ela e fomos recompensados por sua companhia por muitos anos além do imaginado.

Acredita em destino? Acha que Kat estava ‘traçada’ no caminho de vocês?

Como não acreditar? Impossível. Um ‘Ser Superior’ que conspirou e conectou as pessoas para se encontrarem no mesmo caminho. Em 1991, saímos da Nova Zelândia com destino a Tonga. Depois de três dias no mar, uma tempestade de ventos de mais de 120 km/h levantou ondas de dez metros e quebrou nossos mastros. Tivemos que voltar à Nova Zelândia, em uma das navegadas mais duras, com três tempestades até chegarmos a um porto seguro. Naquela navegada, Vilfredo e eu fizemos um pacto de adotar uma menina quando chegássemos ao porto. Fomos ao Brasil em busca de patrocínio para consertar nosso barco, comprar novos mastros. E visitamos dois lares de crianças órfãs. A assistente social nos disse que era um processo longo e que nunca poderíamos adotar, pois morávamos num barco, que ‘isso não era um lar para uma criança’. Voltamos para Nova Zelândia e tivemos que ficar um ano no país. E foi nesse momento que conhecemos e iniciamos nossa amizade com Jeanne e Robert, que poucos anos depois nos escolheram para adotar Kat. Ah!, detalhe importante: quando a gente se conheceu, Jeanne estava grávida de Kat.

A escolha do filme para representar o Brasil no Oscar gerou certa polêmica por conta de Aquarius. Defensores do longa disseram que ele foi retirado de cena por questões políticas. O que tem a dizer sobre isso?

Vou repetir as palavras de David, meu filho e diretor do filme, porque concordo plenamente com o que ele diz. A polêmica está relacionada às primeiras reações, que foram prematuras. Curiosamente, revelaram um ‘pré-conceito’ sobre um filme que fala justamente sobre preconceitos. Mas isso já está superado e o melhor dessa história toda é que as pessoas estão se surpreendendo e reconhecendo as qualidades de Pequeno Segredo. A obra já responde por si. A pré-estreia ,com tapete vermelho para sessão de gala durante o Festival do Rio, terminou com o público que lotava o Cine Odeon aplaudindo de pé. Nas noites seguintes, mais duas sessões lotadas, encerradas com os aplausos de uma plateia emocionada. Definitivamente, o filme não precisa de polêmicas para se promover, ele fala por si só.

Qual foi a maior lição que Kat deixou? Espera reencontrá-la um dia?

Além do amor incondicional, Kat deixou ainda mais evidente que devemos viver intensamente. E ela nos conscientizou da ‘impermanência’ de nossas vidas. Não devemos desperdiçar um segundo sequer, nem nos preocupar com o futuro. Ame. Sorria. Brinque. Viaje. Descubra. Viva o momento! Ela é a estrela que nos guia e nos acompanha. E, sim, espero reencontrá-la em outra dimensão, em outro plano, quando eu estiver preparada para esse encontro.

Não há dor que se compare à perda de um filho. Como faz para amenizar o seu luto?

O amor materno é o tipo de sentimento que só entende quem já teve seus próprios filhos. Por isso o luto pela perda da Kat é de uma intensidade e extensão de um sentimento que não podem ser comparadas com as de qualquer outro, e depende de cada mãe ou pai. Um fator de ajuda muito forte é ter minha família por perto. Sem o amor de Vilfredo e dos filhos eu teria pirado. Também a chegada de meus netos tem sido uma alegria na minha vida. Busquei ajuda profissional com um terapeuta de almas, o Dr. Caio, um psicólogo que me fez encarar e aceitar a partida de Kat desta vida. Mas o que tem sido uma terapia e tem amenizado o luto foi de escrever a história dela e manter sua memória viva. E, agora, com o filme me sinto feliz em falar sobre ela. E viajar e navegar em um veleiro que se chama Kat, fazem muito bem para minha alma. Ela mora no meu coração e será amada eternamente.

Qual é seu maior sonho hoje?

É ver que se descubra uma cura para o HIV. Só não posso ainda adiantar qual o meu próximo sonho porque, neste momento, estou planejando os detalhes para também transformá-lo em realidade. Então, por enquanto, ainda é segredo. Mais um que, em breve, será revelado (risos).

 



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