Fim do silêncio

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Vanessa Ratti

O dia 25 de maio amanheceu diferente. Naquela quarta-feira, aos poucos iam surgindo comentários sobre um crime sexual que chocaria o Brasil. Um vídeo começou a circular e mostrava uma jovem de 16 anos desacordada sendo ‘tocada’ por pelo menos 30 homens, em comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Segundo relatos da menor, em seu depoimento para a polícia, ela havia saído de casa para ir a um baile funk quatro dias antes da imagem começar a ser exibida. Depois da festa, seguiu para a casa de um antigo namorado, com quem se relacionou durante três anos, Lucas Perdomo, 20 anos. Tiveram relação sexual na ocasião. Depois de adormecer, a adolescente despertou em outra casa, onde foi abusada sexualmente por homens armados com fuzis.

O caso, que impressionou o País, expõe uma realidade do universo feminino, já que muitas viveram algum tipo de violência como esta em algum momento da vida. Pelo menos é o que apontam os números da estatística recolhida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública que, em 2015, apontou que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Este crime faz, pelo menos, 130 vítimas por dia. A Dia-a-Dia foi conversar com algumas vítimas e especialistas e a opinião é uníssona: o remédio para a cura da cultura do estupro (leia-se minimizar o ato de violência e culpar a vítima) é romper com o silêncio e lutar para que as mulheres sejam valorizadas e ouvidas na sociedade.

‘Ela não devia estar lá’, ’Estava gostando’, ‘A saia está curta’, ‘Ela se relaciona com muitos homens’. Estes são alguns dos comentários mais comuns que questionam a moralidade da vítima deste tipo de agressão. A sociedade pune a mulher e normalmente inverte os papéis, desvalorizando a queixa e o desejo feminino e esquecendo do criminoso. Para Silmara Conchão, secretária de Políticas Públicas para Mulheres de Santo André, o cenário é ocasionado pela cultura do estupro, que precisa ser combatida em todos os âmbitos da sociedade e principalmente na Educação. “Nós precisamos primeiro desconstruir os estereótipos de gênero para então desfragmentar esta cultura enraizada no Brasil. Porém, a sociedade é muito conservadora e protesta contra este tipo de conquista”, conta. Ela aponta que no município, por exemplo, os casos de atendimento à violência sexual e doméstica a mulheres aumentou cerca de 80%, se levado em conta o suporte entre unidades de Saúde, como pronto-socorro e Hospital da Mulher, e também em espaços que oferecem apoio psicológico como, por exemplo, o Centro de Referência da Mulher Vem Maria (Rua João Fernandes, 118 ). “Temos de ter atendentes preparados para estes crimes. Em um caso que chegou a nós, uma aluna que foi violentada perto da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) e contou que a enfermeira mandou que ela parasse de tremer, porque não conseguia examiná-la. A garota estava em choque, tem de ter cuidado especial neste momento”, diz. Este caso ocorreu no dia 14 de abril. Além dela, entre as unidades de Santo André e São Bernardo foram contabilizados mais seis casos de violência.

A falta de cuidado pós-agressão também foi um problema para Natacha Orestes, de São Paulo. Aos 30 anos, a publicitária tenta retomar o cotidiano depois de sofrer violência do próprio chefe, dono de uma boate em que ela trabalhava como organizadora de eventos. “Nesse dia eu tinha ido ao espaço para me divertir e ele me fez trabalhar. Depois, começou a pagar drinks para mim e eu achei que estava compensando por eu estar ali. Me lembro de ficar tonta e apagar.” A jovem ainda conta que depois disso teve alguns flashes de memória e acordou nua na cama do empresário. “Lembro de algumas coisas, como ele em cima de mim me beijando. No outro dia ainda tive que olhar para ele durante o expediente de trabalho”, completa. Ao pensar em procurar ajuda, ela levou em conta o quanto ele era influente e ainda foi indagada por uma psicóloga se estava apaixonada por ele. “Pensei: ‘Como assim? Nunca gostei daquele homem’. A partir disso nunca mais procurei ajuda psicológica e tenho horror de pensar ao voltar para o mercado de trabalho”, explica. A vítima preferiu não registrar boletim de ocorrência sobre o caso.

Aline Almeida, 24 anos, também sofre consequências do abuso que sofreu até hoje. A mauaense, que foi violentada quando ainda era criança, admite que teve sérios problemas psicológicos quando se viu grávida de uma menina. “Me senti tão suja e por anos tinha este sentimento. Tudo piorou quando eu comecei a pensar que viria ao mundo outra mulher, e que tudo isso pode acontecer com ela também. Confesso que fico com medo de todos que chegam perto dela e da minha outra filha”, conta a manicure. Além disso, ela confessa que conhecia muito bem o agressor, que faz parte da sua convivência até hoje. “Ele faz parte da família e quando alguns familiares souberam, viraram a cara para mim como se eu fosse a culpada. Durante muitos anos tive medo de me relacionar com outros homens”, conta.

No caso delas, da menina violentada no Rio e em 70% dos estupros, os agressores são conhecidos, revelam números divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, em 31 de maio. Além disso, o documento mostra que a cada dez casos de estupro, em sete o autor pertence ao círculo social da vítima. “Por esse motivo os casos registrados não passam de 30%. As mulheres têm medo de morrer ou acabar com a vida de um conhecido”, aponta Silmara.

O psicólogo e professor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Rafael Dutra explica que este fator acontece porque os agressores em sua maioria tem as mulheres como objeto. “Os pais falam para a filha não beber, não usar saia, mas não falam para os filhos que o corpo da mulher é dela e que eles não têm direito sobre isso. A gente não tem uma educação desde o início da vida para estabelecer esses limites”, esclarece.

Entre desabafos e relatos, as mulheres buscam colocar abaixo a desigualdade entre gêneros e conquistar a liberdade para trabalhar, estudar, usar a roupa que desejar e estar onde quiser. Lutam e esperam por um mundo onde o ‘não’ feminino é de fato ‘não’. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento é estupro. Não tem meio-termo.

Punição é só para os estrupadores?

A Polícia Civil indiciou sete pessoas pelo estupro coletivo da jovem de 16 anos que chocou o País no início de junho. Agora, o Ministério Público vai decidir se os maiores de idade serão denunciados. Se isso acontecer, o caso vai para a Justiça, que decide se eles vão virar réus. Depois dos depoimentos, a adolescente está no programa de proteção do Estado. Pelo visto, ela terá de lidar com as consequências desta violência ­ – e os seus traumas – por um longo tempo. Foi o que aconteceu com as vítimas do médico Roger Abdelmassih, 72, que também acabou de ser indiciado pela suspeita de ter cometido mais crimes de estupro e de manipulação genética irregular contra outras 37 pacientes, entre 1990 a 2008.

Preso em Tremembé e condenado a 181 anos de prisão por violência sexual ­­contra 37 vítimas ­– ou seja, somam-se 74 violentadas ­–, o médico geneticista costumava beijar e acariciar suas pacientes à força. As denúncias começaram em 2008 e ele foi indiciado em junho de 2009 por estupro e atentado violento ao pudor. Chegou a ficar preso, mas recebeu do STF (Supremo Tribunal Federal) o direito de responder o processo em liberdade. O habeas corpus foi revogado e ficou foragido durante três anos.

O fato gerou revolta em muitas de suas vítimas, uma delas Vana Lopes, que foi à caça de seu algoz e lançou o livro Bem Vindo ao Inferno ­– A História de Vana Lopes, a Vítima que Caçou o Médico Estuprador Roger Abdelmassih (Matrix Editora, 424 páginas, R$ 49,90, em média), em que detalha a violência que quase custou sua vida, em todos os sentidos.




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