Nuances da loucura

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Miriam Gimenes

A escritora mineira Maura Lopes Cançado (1929-1993) teve de se internar por diversas vezes durante a sua vida por conta de problemas psiquiátricos. Da experiência nada agradável de sua estada em hospitais – tanto em Minas quanto no Rio de Janeiro –, traduziu em texto as suas percepções e angústias a partir do primeiro livro, o Hospício é Deus, de 1965.

E foi nesta obra que o dramaturgo Pedro Brício se baseou para escrever o monólogo Diários do Abismo, que estreia hoje, às 21h, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo.

Trata-se de um texto autobiográfico encenado pela atriz Maria Padilha, que completa 40 anos de carreira. Ela ganhou o livro do também ator Ney Latorraca e se encantou. “Ele me disse: ‘Olha essa mulher. Ela não é incrível?’” Em conversa posterior com Brício, concordaram que dali sairia uma grande personagem e compuseram a obra, que também pode virar filme e tem como destaque a denúncia da autora os terríveis métodos de tratamento praticados à época.

“Achávamos que era importante a gente trazer essa autora tão esquecida, embora tenha feito dois livros (além do já citado, tem também O Sofredor do Ver, de 1968). Quem a conhece, no jornal, são os jornalistas e escritores, achamos que era importante mostrar para o público geral”, analisa a atriz, que ressalta a atualidade de Maura em diversas questões. “Ela não é uma louca que escreve, mas sim uma escritora que teve problemas mentais. Foi superculta, leu muito, mas enfrentou adversidades na época dela, inclusive porque era desquitada e foi muito maltratada. Veio morar no Rio e sofreu muito preconceito, tanto de homens quanto de mulheres.”

Quem estendeu a mão e a ajudou foram o escritor Ferreira Gullar e o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Ela passou a contribuir com o Jornal do Brasil para conseguir se sustentar. “Mas, apesar de tudo que passou, é muito engraçada, irônica, lúcida. Em vários momentos da peça você se pega pensando ‘que louca nada, porque penso igual a ela’. Sabe quando você encontra uma voz que se afina com a sua? A plateia também sente isso, que ela tinha uma lucidez muito forte”, diz Maria Padilha.

A atriz diz ainda que em uma análise que o político e jornalista Fernando Gabeira fez de Maura, ressaltou que ela descrevia com perfeição a organização do poder dentro do hospício. “Era algo muito parecido com o nosso País. Talvez o hospício seja até mais organizado que o Brasil”, finaliza.

Diários do Abismo – Teatro. No Sesc 24 de Maio – 24 de Maio, 109. De sexta, sábado (às 21h) e, domingo, às 18h. Até 7 de abril. Ingressos de R$ 12 a R$ 40, à venda no site www.sescsp.org.br.  




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